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Vidro | Crítica

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Vidro (Glass, 2018) pode até não ser um dos melhores trabalhos de M. Night Shyamalan, mas, com certeza, é um de seus projetos mais ambiciosos, e também por que não dizer, mais polêmico. A produção consegue fechar a franquia inesperada, que começou lá em Corpo Fechado (2000) e continuou em Fragmentado (2016), de uma forma interessante, onde Shyamalan brinca com os personagens, num complexo de Deus gigante, apresentados nesses dois filmes.

Vidro envolve o espectador em uma trama instigante, mas que peca ao estilhaçar a história para quem assiste em pequenos pedaços que não se casam muito bem um com outro. Shyamalan parece abusar da boa vontade do espectador para conectar os pontos, e assim, faz com que Vidro mostre todas as suas rachaduras, dessa idéia tecnicamente perfeita e reluzente que o diretor teve ao criar toda a mitologia, onde o filme acaba por ser um mar de expectativas.

Vidro – Crítica | Foto: Buena Vista Internacional
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Vamos deixar claro, aqui, Vidro não é completamente ruim, o longa apenas parece navegar os caminhos tortuosos, como se refletisse num espelho fosco, mas a produção se apoia em ótimas atuações de seus protagonistas para contar mais um pedaço da história de David Dunn, Kevin (e suas inúmeras personalidades!) e do Mr. Glass. Assim, Shyamalan nesse filme se aproveita e se debruça em um texto cheio de metalinguagem e abusa de um mar de referências em HQs para contar uma história de super-heróis da vida real.

Desde do começo, vimos que os personagens criados pelo diretor não são milionários mascarados num cidade cheia de vilões, ou capitães com poderes cósmicos e corte de cabelo estilosos, e sim, pessoas aparentemente comuns com pequenos dons que os levam a realizar grandes feitos. Mas, se tem uma coisa que Vidro peca é no seu ritmo. Shyamalan parece começar esse filme com o pé no acelerador, onde logo de cara já vemos, Kevin (James McAvoy) com vítimas sequestradas e Dunn (Bruce Willis) de vigia pelo bairro. Heróis e Vilões lado a lado, como uma clássica história de quadrinho.

Claro, McAvoy, rouba todas as cenas para si, no minuto que vemos seus personagens aparecerem em tela e sua atuação cintila magistralmente em tela, a cada troca das personas que habitam dentro do corpo de Kevin, 23 no total. Já Willis, parece transparecer o semblante sério e carregado, visto lá em Corpo Fechado, como se o tempo não tivesse passado, um feito e tanto do ator.

Mas, após situar o espectador no filme, o roteiro de Shyamalan, apenas consegue trabalhar em pequenas doses seus personagens, onde o diretor nos entrega sucintos momentos de empolgação, onde a criação da expectativa e da antecipação do que irá acontecer (e quando, e onde, e por qual motivo) acaba por percorrer e acompanhar mais da metade do longo. É como, se em Vidro, Shyamalan, nos oferecesse, durante mais de uma hora, um doce, mas acabar por nos entregar, apenas, pequenos pedaços, para depois lá na frente, nos oferecer um bolo inteiro.

Vidro – Crítica | Foto: Buena Vista Internacional

Mas, se tem uma coisa que Vidro acerta é como o roteiro trabalha no seu personagem título, o conturbado Mr. Glass. Samuel L. Jackson, aparece e fala pouco, mas realmente entrega uma atuação precisa, intrigante e misteriosamente muito boa. Shyamalan acerta e muito ao deixar o personagem nas sombras, como um clássico chefe de fase final de um jogo de video-game, aquele que só se apresenta no finalzinho sabe? e apenas quando descoberto e que aqui nos pega de surpresa com uma reviravolta clássica do diretor.

Já a personagem de Sarah Paulson, a Dra. Ellie Staple, serve muito bem com um bom contraste para o personagem de Mr. Glass. Ambos são muito carismáticos, cada uma a sua maneira, e com um poder de persuasão gigante com as outras pessoas que acaba por ser um fator decisivo apra a trama. Paulson ecoa talento em tela (aliado com a opção do diretor de manter a câmera sempre estar colada no seu rosto). A atriz acaba por ser uma ótima aquisição para o filme e para a franquia de um modo geral, juntamente com o retorno de Anya Taylor-Joy, Charlayne Woodard e Spencer Treat Clark que na medida do possível fazem boas atuações.

Assim, Shyamalan consegue terminar sua franquia de super-heróis comuns com um estrondo, onde é capaz de ouvirmos o teto quebrar dentro da cabeça das pessoas, após o final do filme. E diferente de seus antecessores, Vidro, não parece, ser uma daquelas obras isoladas e que funciona sozinha, e sim, uma produção robusta, complexa, ora cansativa, mas sem deixar de ser perturbadora e sinistra e que acerta em amarar (algumas!) pontas apresentadas durante todos esses anos.

No final, Vidro entrega de uma forma mais que satisfatória, não uma, mas alguma conclusão, mesmo que difícil e que possa não agradar a todos. Assim, apenas deixamos aqui o questionamento, seria Shyamalan um mestre do suspense ou alguém que apoia em pequenas idéias envelopados em grandes delírios?

Nota:

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Vidro chega em cartaz nos cinemas essa semana.

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Miguel Morales

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