Refém Por Um Fio | Crítica: Bill Skarsgård em mais um papel de doidinho

É uma pena ver que Refém Por Um Fio (Dead Man’s Wire, 2025) acabou por ficar só na promessa. A expectativa era alta e trajetória do longa, que começou com a estreia no Festival de Veneza (fora da competição principal) para depois passar pelo Festival de Toronto, sofreu um grande baque quando sua distribuidora americana, a recém-criada Row K Entertainment, enfrentou graves problemas em conseguir distribuir o longa nos EUA e passou por uma reestruturação massiva com menos de seis meses de operação.
A frustração é justa. Afinal, Refém Por Um além de marcar o retorno do diretor Gus Van Sant após um hiato de sete anos sem lançar filmes, contava com um elenco de estrelas em ascensão em Hollywood como Bill Skarsgård, Dacre Montgomery, Myha’la e Colman Domingo e tinha ainda a presença marcante de Al Pacino no projeto.

Liderado por Skarsgård, Refém Por Um Fio resgata, e foca em contar, a história um caso real dos anos 1970 que, curiosamente, possui semelhanças impressionantes com a história de Luigi Mangione, ocorrida anos depois, em 2024. Ao analisarmos esse fator, fica claro que décadas podem ter se passado, mas o enredo do cidadão comum sendo esmagado por grandes corporações continua dolorosamente atual.
O paralelo estabelecido entre a jornada de Tony Kiritsis (vivido por um excelente Skarsgård) e de Mangione é uma forma de olhar para essa história que tem um certo capricho visual e estético bastante interessante de se assistir. Contudo, talvez, falte para o filme aquela faísca essencial para fisgar o espectador com a doideira da história, com a mensagem que tudo isso quer passar e fazer mais do que apenas um retrato de época muito bem executado e ambientado.
Por mais que Skarsgård entregue mais uma performance notável de um personagem perturbado que já conta com o Conde Orlok em Nosferatu, Eric no reboot de O Corvo e o criminoso Clark Olofsson em minissérie da Netflix, o filme, com o perdão do trocadilho, atira para muitos lados. A trama não se limita a só focar Tony, que em um dia de fúria invade os escritórios da Meridian Mortgage Company e faz o executivo Richard Hall (Dacre Montgomery, praticamente irreconhecível e bem diferente da figura esbelta que interpretou em Stranger Things) de refém com uma arma presa ao pescoço e cheio de demandas depois que, segundo ele, a empresa de forma deliberada o ferrou em um negócio.
O roteiro também tenta abarcar tramas paralelas para o radialista Fred Temple (Colman Domingo), e como ele é a voz para o povo da cidade, para a jornalista Linda (Myha’la), que busca um lugar ao sol na emissora que trabalha, sendo uma mulher nos anos 70, e uma mulher negra que tem que competir com os colegas menos talentos, relação conturbada de Richard com seu pai, o magnata M.L. Hall (Al Pacino), e todo o frenesi policial e midiático da época. Trata-se de um retrato de um tempo pré-redes sociais e sem a cultura do clique instantâneo, em que a cobertura dependia da TV e dos jornais impressos, com equipes de repórteres esperando horas a fio por qualquer novidade.
Se o roteiro de Austin Kolodney deixa o filme um pouco mais lotado e fragmentado do que deveria, Van Saint faz o melhor para contar essa história da forma mais interessante que pode. No meio de imagens com aspectos granulados e que dão uma cara de película antiga para o filme, Refém Por Um Fio segura a expectativa do espectador para saber o que acontece com Tony, com Richard e tudo mais. Será que as exigências que ele tem vão ser cumpridas? Ele vai ter sua imunidade? Ele vai ter a dívida cancelada e ainda ganhar o dinheiro que pediu com uma espécie de danos morais (são US$ 5 milhões)?

Com um certo humor por conta da surrealidade da história, Van Sant deixa o espectador na beira da cadeira para ver o desenrolar da trama enquanto Tony e Richard tem longas conversas, discussões e vemos a arma presa no seu pescoço deixar a situação ainda mais dramática.
No fim das contas, Refém Por Um Fio oferece um olhar afiado sobre o caso e se sustenta no talento de Skarsgård, mesmo que falte um toque a mais de sofisticação narrativa. Ao encerrar com imagens reais do acontecimento ao som de The Revolution Will Not Be Televised espelhando com uma precisão técnica impecável as cenas ficcionais recém-vistas, fica evidente que esta é uma história fascinante demais para cair no esquecimento.
Refém Por Um Fio chega em 20 de agosto nos cinemas nacionais.












