Se você caiu neste texto, já vou avisando por aqui: O hype em torno de O Convite (The Invite, 2026) é um totalmente justificável. O longa passou no Festival de Sundance, estreou cercado de elogios, foi disputado por diversos estúdios e chega junto com os chamados blockbusters do período de férias. E não é por menos: O Convite é um convite (cof, cof) irresistível para ver quatro atores extremamente competentes te guiar por uma narrativa envolvente e cheia de pequenas reviravoltas deliciosas de se acompanhar.
O Convite se segura totalmente no carisma do quarteto, que navega pelo cômico, pelo constrangedor, pelo dramático e pelo inesperado muito bem. A combinação de diversos fatores faz com que o longa realmente se sobressaia em relação ao que já estreou no ano até agora.
O roteiro de Will McCormack e Rashida Jones (baseado no longa espanhol Sentimental) serve quase como um quinto personagem no longa e realmente é um que chama atenção pela sagacidade, pelo tom ácido e pela forma como desconstrói esses personagens na medida em que apresenta Angela (Olivia Wilde, que também assume a direção aqui) e Joe (Seth Rogen, capitalizado com o enorme sucesso de O Estúdio), um casal em crise no relacionamento, que se preparam para receber os vizinhos do andar de cima, Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz, divina aqui), para um jantar.
McCormack e Jones nos fazem entrar pela porta do apartamento do casal na medida em que Joe chega em casa (com sua bicicleta dobrável) e descobre a informação de que Angela convidou os dois vizinhos para um jantarzinho. Os mesmos dois vizinhos que têm tirado o sono deles por conta de noite barulhentas e calientes.
Enquanto seguimos os dois pelos cômodos do apartamento (que também não deixa de ser um outro personagem aqui no longa), a dupla de roteiristas escancara os problemas, as diferenças e o que tem causado atrito na relação do casal, enquanto a edição, o som e a forma como Wilde grava as cenas nesse espaço contido apenas contribuem para o sentimento corrido e tenso que esses momentos iniciais apresentam.
A personalidade certinha, regrada e tensa de Angela se sobrepõe à do marido, que é mais tranquilona e que definitivamente não poderia ligar menos para isso, e O Convite se apoia nisso para causar um certo incômodo de estarmos vendo esse casal no meio dos preparativos para a noite com vinhos (que Joe esqueceu de comprar), bolachas de água e sal, queijos e outros embutidos. E que não deixa de ser engraçado na medida que vemos as situações que acontecem, as discussões que levam a uma briga, culminarem com a chegada dos vizinhos na porta deles.
O Convite funciona quase como se as brigas e discussões servissem para levar a trama como se fossem uma panela de pressão. Ela esquenta, esquenta, esquenta e a água baixa. Quase como tivéssemos capítulos. Afinal, quando Hawk e Piña chegam ao apartamento, toda a ambientação do filme muda. É como se estivéssemos assistindo a esse filme e passássemos a gostar muito mais da vibe dele quando o casal de vizinhos chega. E a presença do casal é convidativa, claro, mas também escancara conflito para o casal que recebe: já que o que o roteiro apresenta no começo do filme é o fato de que o casal de cima tem uma vida sexual muito mais interessante que o de baixo, o que, claro, cria mais um atrito para o casal, já que Joe quer comentar sobre o assunto e Angela não.
A noite se desenrola com o quarteto conversando sobre diversos assuntos e cometendo algumas bolas fora: seja Angela comprar o que ela acha ser jamón até descobrir que Piña não come esse tipo de comida, ou até mesmo Joe não querer interagir muito com os dois, principalmente com Hawk, principalmente num primeiro momento e que dá a chance para Rogen ir fundo no humor aqui.
O texto que já era bom realmente é elevado pela presença desses atores que realmente estão muito bem e tem seus momentos: de Wilde que acerta no tom como a dona de casa que comprime seus sentimentos, para Rogen (com sua risada característica que ataca novamente aqui e realmente está muito bem) que entrega o estereótipo do marido esquerdo macho e interpreta um professor de música que teve uma banda marcada por um único hit no passado, para Cruz que realmente é o grande destaque como uma psicóloga/terapeuta sexual que esbanja um carisma e sedução absurdo para Norton que tem um personagem que fica ali rodeando o trio, mas aos poucos se envolve nas discussões e que entrega um monólogo super bom lá nos momentos finais.
O Convite parte para um novo capítulo, e o filme continua a só crescer, quando descobrimos que Hawk e Piña têm um relacionamento aberto e gostam de convidar novas pessoas para participarem dele. A tensão sexual que o longa gainha é incrível de assistir e dá vontade de saber o que vai acontecer e com quem (risos).
E isso nos leva para os momentos finais, onde as cartas são colocadas na mesa e os casais trocam de parceiros. O Convite se comporta quase como uma peça de teatro, onde todos os atores se movimentam em cena de uma forma que serve para mostrar os altos e baixos da noite, como isso reflete a dinâmica entre esses personagens e as discussões que movimentam as relações entre eles e entre esses casais.
Wilde entrega um terceiro bom trabalho na direção aqui, depois de Booksmart e o polêmico Não Se Preocupe, Querida), e habilmente usa o espaço do apartamento para contar essa história, onde os cômodos do local ajudam a contextualizar o que se passa dentro daquela casa: seja uma janela no meio do corredor, um tapete que dá um toque especial na sala, ou um escritório que é utilizado para fumar uma coisinha aqui e outra lá.
No final, O Convite é um trabalho primoroso de atuação, direção, roteiro e de como transportar essas palavras para a tela com maestria por um excepcionalmente talentoso grupo de atores. É constrangedor, é engraçado no melhor estilo de O Urso, é um filme que ainda vai ser bastante falado e debatido on-line, e espero que consiga sobreviver aos próximos meses até a temporada de premiações no final do ano. Um convite daqueles para quem procura alguma coisa realmente boa para assistir nos cinemas.
O Convite chega com sessões de pré-estreia pagas e depois amplia o circuito em 09 de julho.
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