Faça Ela Voltar | Crítica: Um terror de respeito

Sem dúvidas, Faça Ela Voltar(Bring Her Back, 2025) era um um filme que desde que foi anunciado era um projeto cercado de expectativas, e olha só, agora que chegou nos cinemas nacionais dá para dizer sim conseguiu superar todas elas.
Afinal, depois do hit que foi Fale Comigolá em 2022, os fãs de cinema de gênero aguardavam para ver qual seria o próximo projeto da dupla australiana Danny Philippou e Michael Philippou, o que os diretores iriam apresentar em seguida, e se iriam se mostrar uma nova voz ou apenas donos de um único sucesso.
E assim como Zach Cregger fez com a dobradinha Noites Brutais e A Hora do Mal, os irmãos Philippou também retornam com um segundo projeto, onde Faça Ela Voltar não deixa peteca cair e eles realmente entregam um terror de respeito para chamarem de seu em 2025. E que ano maravilhoso para o cinema de gênero!

A construção de mitologia aqui em Faça Ela Voltaré extremamente rica e bem costurada, igual em Fale Comigo, e os Philippou conseguem novamente criar aquela ambientação que alguma coisa está errada, e vai ficar ainda mais errada, na medida que os personagens seguem suas narrativas ao longo do filme.
Foi assim com Fale Comigo e agora em Faça Ela Voltarque acaba por ser um filme um pouco mais maduro para a dupla de jovens diretores promissores. Mas o triunfo de Faça Ela Voltar, e o que realmente catapulta esse novo filme para um outro patamar, é a presença feroz, triunfal e catalisadora da indicada ao Oscar Sally Hawkinsque aqui brilha de uma forma assustadoramente boa.
Assim, como em A Horal do Mal, dá para dizer que com Faça Ela Voltar é o ano das senhoras malucas em filmes de terror. Já que o trabalho de Hawkins é tão poderoso, tão sutil, tão magnético que é o que rege e dá a forma para Faça Ela Voltar.
O terror funciona por conta da atriz, e roda em torno das motivações da personagem que são minuciosamente apresentados ao longo do filme na medida que os jovens Piper (Sora Wong) e Andy (Billy Barratt) ficam órfãos depois da morte do pai e vão morar com a terapeuta Laura (Hawkins) e o jovem Oliver (Jonah Wren Phillips)que os acolhe na medida que ainda faltam alguns meses para Andy completar a maioridade e conseguir a guarda da irmã.
Os Philippou novamente usam poucos cenários para fazerem acontecer e Faça Ela Voltar acaba por ser mais uma vez um filme de terror enxuto naqueles termos de “fazem muito com pouco”. Basicamente gravado em uma única locação, a casa de Laura, o longa usa da narrativa para contar sim uma poderosa história de terror e também uma de luto e perda (basicamente o mesmo esquema de Fala Comigo). E também uma do que fazer quando tudo que você mais ama é tirado de você que acaba por ser o grande norte para esse novo filme.
No meio da ambientação inquietante e do tom de mistério de “o que diabo está acontecendo aqui? com “o que vai acontecer com esses personagens?”, Faça Ela Voltarnão poupa esforços para chocar e aterrorizar na medida que vamos por ganhar novos pedaços dessa história que une duas famílias despedaçadas pela tristeza de perderem entes queridos.
Faça Ela Voltar, talvez, seja um dos filmes mais gráficos e violentos que vão passar nos cinemas em 2025 e realmente foi uma experiência comunal bastante interessante de ver os momentos mais uau que o filme entrega. Mas, dentro do contexto da narrativa, e ainda por mais que seja um filme que envolve crianças, e com crianças como o centro da trama e do que acontece nela, é o que deixa a história contada aqui ainda mais assombrosa de se assistir.
E é uma história que apresenta as coisas aos poucos, como, por exemplo, o fato que a personagem de Laura é na verdade um lobo em pele de cordeiro e que aos poucos vamos por descobrir mais sobre suas verdadeiras intenções, quase como se ela fosse a Bruxa do conto de João e Maria, e também sobre o mistério que cerca o que aconteceu com Oliver que não fala e vive com os olhos fixos quase como se estivesse em coma, e ainda a relação entre os dois irmãos que precisam lidar com a morte do pai, a possibilidade de serem separados, e ainda a mudança para uma nova casa e uma nova rotina.

Faça Ela Voltar começa a escalonar a narrativa e cria um sentimento de tensão gigante na forma como as coisas acontecem com esses personagens. Os Philippouusam a câmera mais frenética, igual foi em Fale Comigo, para fazer com que nós, os espectadores, estivéssemos lá junto eles. Os cortes secos na edição, em que as lacunas são preenchidas em outros momentos, e até mesmo algumas pirações visuais, deixam o longa com uma carinha menos rebuscada do que os últimos filmes do gênero se formos comparar.
Mas são os momentos que a trama pira de vez da metade para o final, com os momentos mais chocantes que o filme que vão desde de mordidas na mesa até mesmo socos trocados em pessoas dormindo que deixam Faça Ela Voltar com uma sensação apavorante de se ver. Teve momentos que realmente foram difíceis de manter contato visual com a tela, de quer tapar o rosto ou desviar a cara por completo.
Faça Ela Voltar não tem muito jump scare, mas é efetivamente um filme de fazer pular na cadeira por diversos outros motivos. Seja o uso de imagens gravadas em uma antiga fita, ou para o uso de maquiagens e próteses para um dos personagens que se intensifica ao longo do filme, ou realmente a forma como a violência é usada como uma forma de manipulação física e mental contra os personagens.
E também quando a mitologia é enfim apresentada, as cartas na mesa estão postas, e o momento “então é isso que tá acontecendo?” chega o sentimento desesperador de ”e agora?” que é sentido a cada momento na medida que descobrimos o que pode acontecer com esses personagens agora que sabemos por que eles estão lá e o que os aguarda. E Hawkins magistralmente lidera o elenco dessas crianças mirins (Barrat e Wong estão muito bem e acabam sendo elevados por Hawkins) e o filme como ninguém.
A personagem é complexa, cheia de camadas, e desperta um turbilhão de emoções, e realmente é uma das mais facetadas do ano. E isso ajuda a entendermos o que ela arquiteta, por que ela arquiteta, e como as coisas terminam para ela e para as crianças.
No final, Faça Ela Voltarconsegue contar um bom conto de terror e que merece uma posição de destaque entre as produções de gênero no ano que, como falamos, entregou já bastante coisa boa e que elevou o nível lá para cima. Felizmente dá para dizer que Faça Ela Voltar não decepciona e entrega uma nova e boa produção para somar com as outras boas do ano que saíram até agora.
Faça Ela Voltar chega no dia 21 de agosto nos cinemas nacionais.











