De certa forma Coração Selvagem (Heart of the Beast, 2026) nada mais é que um pseudo-documentário da National Geographic em que vemos Brad Pitt ensinar ao espectador quatro formas diferentes de como construir uma fogueira no meio do nada. Um filme em que temos praticamente um ator conhecido do público fazendo coisas. E aqui, fazendo coisas junto com um cachorro.
E, enquanto eu estava sentado vendo o novo filme do ator na sessão de imprensa, eu pensava que Pitt, junto com Tom Cruise, Leonardo DiCaprio e Johnny Depp, ainda são alguns dos poucos atores em Hollywood que sustentam um filme assim e vendem um filme desses para o grande público. Sobre o que é Coração Selvagem? Fácil, é só falar que é o filme do Brad Pitt com um cachorro.
Já que é justamente isso o que é Coração Selvagem. Um filme de sobrevivência em que temos Brad Pitt, um cachorro com estresse pós-traumático e uma jornada para cruzar o interior dos EUA, onde eles enfrentam obstáculos dos mais diversos possíveis enquanto vemos esses dois personagens lidarem com as questões do passado e dos tempos que eles serviram em combate juntos e como isso os afetou fisica e mentalmente.
É claramente um filme de jornada e que não se preocupa em esconder que é exatamente isso. Claro, é a entrada para o espectador esperar o prato principal, que é o ator de volta como Cliff Booth em As Novas Desventuras de Cliff Booth, o filme de David Fincher com roteiro de Quentin Tarantino para a Netflix que chega em novembro e que deu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Pitt. E, ao mesmo tempo que não deixa de ser uma entrada interessante, é uma entrada simples. Um belisquete. Gostoso, mas que não mata a fome sabe.
E fica claro por que Coração Selvagem é esse tira-gosto. Já que, desde que o próprio DiCaprio ganhou finalmente o seu Oscar por O Regresso, boa parte de Hollywood tem tentado dar as caras nesse tipo de filme. Até Harrison Ford já tentou com O Chamado da Floresta (2020). E aqui, Coração Selvagem é isso. É Pitt, um cachorro e paisagens das mais bonitas, que David Ayer filma aqui depois de anos trabalhando com Jason Statham em dois filmes seguidos e que pelo menos parou de choramingar online pelo corte de diretor de Esquadrão Suicida.
Mas, infelizmente, Ayer não entrega nada demais em Coração Selvagem e nem dá para notar sua mão nele. E mais: faz uma direção protocolar e sem muita empolgação. Claro, os visuais são espetaculares e davam vontade de querer pausar para tirar um print screen e salvar no computador. Mas talvez a simplicidade de tudo seja o que pode ter atrapalhado a experiência do filme como um todo. Já que, enquanto Pitt tentava desesperadamente sobreviver junto com o cachorro a todas as adversidades do próprio lugar (sim, belíssimo), eu tentava me manter acordado no marasmo de cenas que realmente estavam ali só para cumprir tabela.
E fica claro o tipo de filme que Coração Selvagem vai fazer e apresentar logo de cara. Afinal, o longa já abre com a resposta que o público quer saber: quem vai morrer e se é o cachorro. Cabe a nós, como espectadores, sentarmos e esperarmos ver como a trama se desenvolve. Afinal, somos apresentados a James (Pitt), ao cachorro Odin e a como eles vivem a vida no meio do nada, com poucas coisas materiais, mas, claro, com uma bagagem emocional muito maior e mais pesada, que dá um pouco de substância narrativa para o filme.
Nada muito elaborado, claro, mas que prende a atenção quando vemos James sofrer um acidente, o avião que ele pilota cair no meio da floresta e ele e o cachorro treinado precisarem fazer o percurso de quilômetros a pé.
Os obstáculos são os de sempre: desde de encontros inesperados com um desconhecido (J.K. Simmons numa breve aparição) até lobos, chuvas, e outras intempéries climáticas. Coração Selvagem explora muito mais a relação entre homem e animal do que qualquer outra coisa e, lá para os momentos finais, a trama e o trabalho de Pitt, que mostra por que ele ainda é um dos maiores A-lists de Hollywood, apelam para realmente fazer o espectador derramar uma lagriminha sem cerimônia ou culpa. Para os fãs de cachorros, Coração Selvagem é um prato e tanto. Para mim, fã de gatos, continua a ser apenas o aperitivo enquanto espero o longa de Fincher.
Coração Selvagem chega nos cinemas nacionais em 24 de setembro.
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