Começo esse texto já por avisar que o fenômeno online de Backrooms nunca me pegou, tanto que só fui saber da existência dele quando o longa foi anunciado alguns anos atrás. E assim, meu contato com tudo foi agora aqui com o filme do diretor Kane Parsons (na sua estreia na direção depois de viralizar no YouTube) que chega aos cinemas nacionais cercado de expectativa por quem conhece toda a premissa ou, como chamamos, o “lore” que envolve o filme.
E definitivamente acho que Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, 2026) é para quem é realmente muito fã de tudo que foi criado e alimentado nos últimos anos. Talvez, por conseguir entender algumas coisas que a trama apenas deixa no ar, sugere, e parece ser um breve aceno. Um “olha aí!” que parece ser importante, ao mesmo tempo, que não é nada muito chamativo. Como se o longa tivesse feito uma piada e só quem está por dentro dela entende.
Claro, como filme, produto cinematográfico, Backrooms entrega uma boa de uma doideira bastante inquietante, liderada pelos excelentes Renate Reinsve (super em alta após ser indicada ao Oscar no começo do ano e, alguns dias atrás, passar pelo Festival de Cannes como um furacão mais uma vez com o inédito Fjord) e pelo sempre competente Chiwetel Ejiofor.
Com dois atores de peso que lideraram o elenco, a trama de Backrooms (com texto de Will Soodik) vai para caminhos surpreendentes e realmente se apoia numa certa imprevisibilidade narrativa, de que tudo pode acontecer e que nenhum dos personagens que conhecemos (e que não são muitos, diga-se de passagem) vai conseguir sair vivo dessa doideira. E como vão. E se vão.
Como eu não sabia e não conhecia muito sobre a mitologia aqui, das salas dentro de salas, e da figura misteriosa que abriga o local, eu estava esperando um filme de terror/suspense que fosse alguma coisa no nível Noites Brutais ou Um Lugar Silencioso, mas o que recebi foi uma trama extremamente reflexiva, quase como uma sessão de terapia, e que, infelizmente, falha em fazer um filme de terror que realmente dê medo.
Backrooms foca no personagem de Clark (Ejiofor, muito bem), um homem de meia-idade que administra uma loja de móveis à beira da falência, com problemas de bebida, poucos amigos e que frequenta sessões de terapia com uma terapeuta (Reinsve, ótima aqui) que também tem seus problemas, mas está ali para ajudar seu paciente da melhor forma possível. Assim, todo esse contexto narrativo deixa Backrooms ser mais sobre o que levou esses personagens a entrarem nesses labirintos e o que suas experiências (traumáticas) devem ajudá-los a abrirem essas portas e saírem de lá.
Mas o quão assustador é Backrooms?
Olha, o filme tem boas cenas que fazem bom uso de found footage e em uma determinada parte da trama, não só Clark, mas também os outros funcionários do local, os jovens Kat (Lukita Maxwell) e Bobby (Finn Bennett), levam uma filmadora para dentro do buraco na parede do piso inferior da loja em que eles trabalham. O que dá para o filme toda uma chamativa estética visual dos anos 90, onde a forma como a cinematografia é aplicada aqui deixam o longa com uma carinha de filme antigo, meio desbotado, e dão um charme para Backrooms bem interessante.
E Parsons usa muito bem o recurso visual de colocar o espectador como o ponto de vista do que acontece nesse emaranhado de lugares, salas e cômodos que são apresentados quando Clark, e depois Kat e Bobby, e depois a própria Mary, a terapeuta de Clark, resolvem entrar no local pelo azul demarcado na parede. O sentimento de tensão que Parsons usa é muito bem-vindo, aliado ao uso de uma trilha sonora eficaz, onde Backrooms realmente faz o máximo possível para criar essa ambientação de suspense e de que, a cada momento, alguém, ou, aqui no caso, alguma coisa, vai surgir no nosso campo de visão.
E surge. Mas realmente dá medo? Ou faz pular da cadeira de susto? Não.
Backrooms acaba por focar no medo do desconhecido e faz isso de uma forma que a narrativa seja imprevisível e o que apresenta seja impressionante e incômodo de se assistir. Mas, ao mesmo tempo, Backrooms parece que nunca quer dar respostas para sei lá o que estamos vendo no filme e com esses personagens. Afinal, o longa brinca com divagações, pirações visuais e meio que nunca vai fundo em rotular o que é esse conjunto de salas, as ameaças que estão nelas e como esses personagens fazem para sair de lá.
E, talvez, para quem não conhece nada, isso seja um problema (foi para mim, pelo menos). A parte metafórica, o apelo visual das memórias desses personagens e toda a construção dos cenários ajudam para que Backrooms só escalone mais e mais suas passagens, principalmente quando Mary entra no local à procura de Clark e precisa, ela mesma, também enfrentar seus próprios demônios e questões do passado.
As cenas nas sessões de terapia de Clark, e que dão a base para vermos depois o desenrolar da narrativa nos momentos finais de Backrooms, são lideradas por Ejiofor e Reinsve, que entregam boa parte das melhores cenas do filme. Mas, ao mesmo tempo, alguns são bastante extensas e dizem mais sobre esses personagens e suas construções como figuras complexas desse universo do que efetivamente sobre o que é esse universo.
E ao mesmo tempo tudo é meio sério, fala de assuntos sérios (relacionamentos abusivos e como trabalhar com a saúde mental), e sinto que para um filme sobre salas dentro de salas, e que são quase como estar dentro de um quadro de Salvador Dalí no ápice do surrealismo, talvez pudesse ter tido uma abordagem menos rígida, menos “terror elevado”, e mais terror tradicional.
Algo que, talvez, pudesse ajudar o filme com um apelo mais comercial, igual a Five Nights at Freddy’s, já que parece querer focar no público que cresceu e conhece tudo que o filme diz. E nem mesmo quando a trama entrega momentos de ficar colado na cadeira para ver como, quando e a que custo Clark e Mary vão conseguir sair do local enquanto tentam escapar da “tal criatura” que os persegue, e Backrooms abre um novo caminho e possibilidade, enquanto somos apresentados à figura de um cientista (Mark Duplass) que passa o filme todo observando os personagens, pelas câmeras, diversos cômodos que compõem esse emaranhado de portas, portinhas e buracos na parede.
E Backrooms também falha em dar respostas (pelo menos para quem não conhece nada da mitologia) sobre o local em que o tal cientista trabalha e o que eles fazem lá. É como se só tivéssemos o Laboratório de Hawkins de Stranger Things, sem explicar o que é a Onze, o Mundo Invertido, o Vecna. Tudo é meio largado assim nos momentos finais, o que dá a sensação de que será resolvido num próximo filme.
No final, Backrooms entrega poucas boas passagens e se apoia muito no talento do elenco principal e na carga dramática que esses personagens têm, e que Reinsve e Ejiofor acertam ao colocarem seus passados de uma forma paralela com a trama e o que se passa dentro dessas salas, salinhas e porões. Mas, infelizmente, Backrooms peca em só ficar no sugestivo, no conceito e na piração, e falha em contar uma história que realmente dê medo. Aqui, só causa um incômodo de que alguma coisa está ruim, mas nunca define exatamente o que é ou quem. Para mim, Backrooms acabou ser Backdon’t.
Backrooms: Um Não-Lugar chega nos cinemas nacionais em 27 de maio.
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