Hollywood | Crítica da Temporada

“Era Uma Vez… em Hollywood”O curioso que ambos Quentin Tarantino e Ryan Murphy tenham lançado produções que fazem olhares para a cidade das estrelas de uma forma mais lúdica e que brincam com a fórmula “E se?..“
E aqui, Hollywood faz uma produção quase fantasiosa, como se contasse uma fábula, como um daqueles que se começa com Era Uma Vez…, para contar, e mesclar, histórias de pessoas que viveram durante o período retratado no final dos anos 40 do pós-Guerra, juntamente com personagens criados exclusivamente para a minissérie.
Hollywood de certa forma faz um conto de fadas onde vemos uma cidade à frente do seu tempo para o lançamento do filme Peg, no caso Meg. Murphye seu colega Ian Brennan, fazem aqui a grande pergunta “E se..?” que se desenrola toda a trama, e nos deixa perguntando como estaríamos hoje se os eventos que que aconteceram na série tivesse acontecido na vida real?
E para isso, Hollywood faz quase como se fosse um exercício de pensamento, e assim, é preciso conhecimento sobre como a cidade funcionava, e ainda funciona, suas instituições, e claro, suas pessoas. Nada muito profundo, mas um pouco de bagagem para assistir a série faz dessa jornada rumo ao passado uma viagem muito mais interessante. E é preciso alguém do calibre de Murphy para conseguir achar a delicadeza e a sutileza para contar essa história.

Em entrevista, Murphy afirmava que “a série será um olhar sobre Hollywood, e a indústria do sexo, e como absolutamente tudo mudou, mesmo que nada tenha mudado”. E é exatamente isso, Hollywoodem seus 7 episódios fala sobre racismo, o velado e escancarado, sobre sexismo, agismo, e basicamente todos os -ismo que nos assombram nos dias de hoje. Hollywood trata de uma maneira bastante vocal, marca de Murphy, sobre tudo que a indústria de Hollywood briga nos dias de hoje, contra o machismo, contra os assédios, a perseguição para os atores LGBTI, e a equiparação salarial entre homens de mulheres.
Hollywood, como bem retratado na série, pode ser um lugar solitário e impetuoso, e naquela época, e até hoje, fica claro que o sexo move a cidade. E basicamente todo o desenrolar de Hollywood é por conta dessa interação, da ida para a Terra dos Sonhos num posto de gasolina, e sobre tentar ser levado à serio numa cidade onde há inúmeros clubinhos para se fazer parte e que sempre acabam por ficar com as melhores oportunidades.
E Ryan Murphy mesmo todo poderoso talvez não seja levado a sério. Afinal em Hollywood, Murphy coloca uma lupa que amplia os defeitos e problema que a própria Hollywood tem até os dias de hoje. E ao fazer isso, aqui, o produtor escancara e chuta a porta com a maior força do mundo. Murphy não tenta dar um espaço para as minorias como negros, asiáticos e LGBTI, e sim, normalizar esse grupo a fazer parte das conversas e principalmente das decisões.
Em Hollywood, Murphy tenta quebrar paradigmas e pré conceitos, e ataca como vemos certas coisas, por que não chamar o beijo entra pessoas de mesmo sexo apenas de beijo, em vez de rotular como o beijo gay, ou até mesmo, como é dito em um dos episódios, um roteirista negro para o filme com um diretor metade asiático, por que não dizer um roteirista e diretor?
Mesmo não sendo uma das melhores produções de Murphy, afinal Hollywood parece ter muito a dizer e muito a se discutir, a produção aponta uma luz pra certas questões que fazem parte de como a Hollywood funciona, apenas que aqui, talvez a série, seja cegada pelos seus próprios astros, e claro a própria grife que o Murphy possui.
Ao trabalhar com seus queridinhos, Murphy sabe que eles irão cumprir o papel e o que é esperado, é o caso de Darren Criss como o diretor Raymond Ainsley, ou ainda Dylan McDermott como o debochado Ernie, mas quem aqui brilha são figuras um pouco mais novatas na parceria com o diretor, como a veterana Patti LuPone que está incrível como Avis Ambergque tem uma trajetória de ser “a esposa” para ser uma “poderosa executiva”, e claro, o ator Jim Parsons que cada vez mais se afasta de seu Sheldon de The Big Bang Theory, onde aqui ele rouba as cenas como um agente de caça-talentos sem escrúpulos.
Já as novatas Laura Harrier(ótima) e Samara Weaving entregam boas participações como duas atrizes em começo de carreira, assim como Jeremy Popecomo um roterista que busca vender seu primeiro projeto, David Corenswetcomo um ator iniciante e dobrando sua parceria com Murphy depois de trabalhar em The Politician, e ainda Joe Mantello com um executivo de um grande estúdio.

O elenco um pouco inchado faz com que Hollywood demore um pouco para engrenar, amarrar e juntar todas as peças desse grupo de diretores, atores, e roteiristas que irão contar a história de Meg, o primeiro filme de um grande estúdio com uma protagonista negra. Para isso, Hollywoodleva tempo, mas nos agracia com figuras exuberantes, e uma recriação de época fascinante principalmente do que a série chama de ACE Studiosque na vida real é a conhecida entrada da Paramount Pictures.
E no final, a execução acaba por ser um pouco mais cansativa do que deveria, mesmo que divertida, tem seus altos e baixos, e acaba por ser uma história quase caricata, pomposa e afetada. Hollywood parecia a chance de ser uma produção que fosse diferente do que o diretor já fez, mas aqui, Murphy parece optar por colocar o seu DNA clássico de sempre com um medo de ousar, mesmo que aponte o dedo para a indústria que ele mesmo faz parte. O letreiro de Hollywood pode ser de metal, mas o teto é de vidro, e na tentativa de estourar, os cacos podem cortar.
Hollywood disponível na Netflix.













