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Adiado mais uma vez: por que Pillion enfrenta dificuldades para chegar aos cinemas brasileiros?

Parabéns! A data de lançamento de Pillion no Brasil já está fazendo aniversário e, em breve, completa 6 meses.

Lançado no Festival de Cannes no ano passado, o longa do diretor Harry Lighton acompanha um homem tímido na muda ao conhecer líder de uma gangue de motoqueiros. Assim, Ray introduz Colin ao universo BDSM, iniciando-o como seu submisso, o que provoca uma intensa jornada de autodescoberta, desejo e questionamentos sobre controle.

E segundo o material de divulgação, dá para ver que a história combina romance, humor bem característico e é repleta de cenas bem ousadas.

Assim fica claro, que definitivamente, lançar um filme como Pillion nos cinemas brasileiros é um desafio que mistura barreiras comerciais, culturais, de divulgação e, claro, da pirataria.

E o longa perdeu mais uma data de estreia (que seria em 21 de maio). E isso nos leva a pergunta: por que é tão difícil lançar um filme como Pillionnos cinemas brasileiros?

Alexander Skarsgård e Harry Melling vivem relacionamento no primeiro trailer de Pillion; longa passou em Cannes e está em 100% de aprovação

Foto: A24
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O burburinho que movimentou o mundinho cinéfilo

Estrelado por Alexander Skarsgård e Harry Melling,o filme estreou no Festival de Cannes, venceu o prêmio de roteiro na mostra Un Certain Regard e recebeu elogios da crítica internacional.

Mas, ao mesmo tempo, não recebeu o mesmo carinho dos votantes na temporada de premiação no final do ano. Talvez, tenha sido a temática, a falta de divulgação do estúdio ou até mesmo a competição com outros filmes.

Chegou aos cinemas britânicos em novembro, mas só foi chegar aos cinemas dos EUA, em 2026, em fevereiro (uma das primeiras datas que o longa teve também aqui no país).

Seria o mau timing o problema de Pillion?

O burburinho pós-Festival de Cannes atraiu a curiosidade do público cinéfilo, mas o apelo do longa não se mostrou tão viável para o público comum e mainstream, principalmente após o buzz gerado pelos trailers e pelas cenas explícitas comentadas nas redes sociais. E com Cannes sendo em maio, as primeiras cenas de Pillion foram liberadas on-line em outubro e o lançamento do filme nos EUA só aconteceu em fevereiro do ano seguinte.

O problema nem era agradar ao público-alvo do filme (mais sobre isso abaixo), e sim tentar vender o longa para uma audiência maior e menos nichada, já que é sempre uma dificuldade para filmes com essa temática fazer com que a conversa saia da bolha cinéfila.

No metrô de São Paulo, às 18h de uma terça-feira, o assunto, claro, é Pillion. Em tom de ironia.

Tradicionalmente um problema cultural.

 E, de maneira geral, filmes com temática LGBTQIA+ já enfrentam mais dificuldades para serem lançados nos cinemas nacionais, quem dirá alcançar grandes bilheterias no Brasil. E isso nem quando seguem uma narrativa mais “palatável” ou romântica tradicional.

Por exemplo, A História do Som foi lançado nos cinemas nacionais pela Imagem Filmes depois que a Universal Pictures tirou o longa da sua grade, talvez, também por não acreditar no vies financeiro do filme. Com um lançamento reduzido, não chegou a entrar no Top 10 filmes mais vistos naquela semana e levou menos de 10 mil pessoas aos cinemas (número que garantiu a 10ª posição, segundo dados da comScore).

Outro filme com temática LGBTQIA+, O Olhar Misterioso do Flamingo, estreou em março e também não chegou a entrar no Top 10 filmes mais vistos naquela semana. O mesmo vale para Ruas da Glória, que estreou no começo de abril.

Mas no caso de Pillion,a situação é um pouco mais complexa para vendermos o filme como um produto. O fetichismo BDSM da história e a dinâmica de dominação/submissão que envolvem os protagonistas tornam o material ainda mais difícil de vender comercialmente. O público médio, que busca o cinema como uma forma de escapismo, pode enxergar o filme como “nichado demais”, “explícito demais” ou até desconfortável.

Parte das discussões online a cerca de Pillion mostram que o longa tem exatamente essa divisão: alguns enxergam a obra como uma história sensível sobre descoberta pessoal, enquanto outros a consideram perturbadora ou até focada em uma relação tóxica.

Mas não é para isso que, de certa forma existe o cinema em sua mais pura forma: causar um sentimento de reflexão? Sim, claro, mas temos que ver o cinema como uma indústria, onde dinheiro investido é dinheiro recuperado.

Mas por que o erro na estratégia de Pillion parece ter sido mais profundo?

A única diferença de Pillion para os outros filmes citados é que os três tiveram passagens por festivais nacionais (seja a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo ou o Festival do Rio). Ou seja, eles foram vistos por pessoas que efetivamente queriam vê-los. E Pillion era esperado para o MixBrasil, festival que celebra a diversidade e acontece em outubro. Mas o longa não apareceu na lista.

Seja porque o estúdio não liberou, o festival não teve interesse ou não conseguiu bancar as sessões (o chamados screening fees), o fato é que, ao não fazer a rodada de festivais nacionais, Pillionnão atingiu nem o público cinéfilo, nem o público LGBT, nem o público que frequenta festivais.

E agora, sem data de estreia em maio, não atingiu nenhum deles, e nem vai atingir o público comum que poderia dar um gás maior para o longa tentar fazer uma bilheteria decente.

Afinal, com o filme disponível por aí, muita gente acabou já vendo. Inclusive criadores de conteúdo e jornalistas (sendo que isso é um outro tópico). A questão é que agora, mesmo se o filme tiver um lançamento, ainda que reduzido, focado em capitais e cinemas de perfil alternativo, ficaria o quê? Uma ou duas semanas em cartaz? A ideia de segurar um filme desses para junho (e pegar carona no mês da diversidade), hoje, em plena era digital, soa muito anos 90. E isso na hipótese mais otimista, porque o distribuidor não confirmou nada até o momento.

Ainda vale lançar Pillions nos cinemas nacionais?

Não sabemos se o estúdio tem algum tipo de obrigação contratual de lançar o longa nos cinemas. Mas particularmente, vendo Pillion, como produto, e não como arte, acho que o momento do filme se passou.

O boca a boca até poderia ajudar, especialmente entre comunidades LGBTQIA+ e frequentadores de festivais, mas dificilmente, agora, o longa teria uma chance de ir bem ou até mesmo fazer valer seu lançamento nos cinemas. Eu veria, esperei até agora. Mas para um filme que fala sobre uma gangue de motoqueiros, dá para ver que essa moto já passou.

É mais fácil, infelizmente, já mandar para o Prime Video, onde a Diamond Filmes tem um acordo de parceria com o streaming no Brasil.

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