Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out | Crítica: Carisma de Josh O’Connor ofusca mistério rebuscado

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Em 2019, com Knives Out (que veio com o título nacional de Entre Facas e Segredos), o diretor Rian Johnson conseguiu um feito bastante interessante: colocar um bando de nomes famosos de Hollywood em um filme de murder mystery, no melhor estilo Agatha Christie,que não só ajudou a revitalizar o gênero no cinema, mas como criou uma nova franquia de filmes num momento onde a busca por eles estava em alta.

Photo by John Wilson/Netflix – © 2025 Netflix, Inc.
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Claro, no ano seguinte ao lançamento do filme tivemos a pandemia, tudo mudou na forma como assistimos filmes e séries e o streaming ganhou muito mais força. Então, a franquia Knives Out foi parar na Netflix e Johnson recebeu uma bolada para desenvolver filmes. E o roteirista/diretor não perdeu a mão e o filme se tornou um marco na cultura pop, no mundinho cinéfilo e parecia que todo artista de Hollywood queria estar envolvido com o próximo capítulo dessa história.

E se o primeiro filme tinha um ar de frescor para colocar personagens carismáticos num casarão no meio do nada e apresentar uma trama de mistério extremamente política num momento que o debate americano estava bastante inflamado (ainda continua, claro), o segundo bem que tirou um pouco o tom de seriedade apresentado, foi para uma ensolarada locação, e abraçou um lado mais floreado e galhofa.

O que continuou o mesmo claro foi a presença de Daniel Craig como o inteligente, sagaz, e competente detetive Benoit Blanc e que na época do primeiro filme vinha, e surfava, do sucesso de ter finalizado a franquia Bond. 

E claro que um terceiro filme era bastante aguardado pelos fãs que querendo ou não impulsionam os filmes Knives Out ao longo dos anos no streaming, onde o gênero segue extremamente popular.  E com Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out (Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery, 2025) Johnson está de volta e entrega novamente um bom mistério em um filme cheio de diálogos extensos e reflexivos recheados com comentários políticos e sociais ainda mais pertinentes do que os feitos lá em 2019. 

Definitivamente Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out faz um retorno que lembra muito o primeiro filme. A pergunta que paira no ar: é o melhor dos três? Não! Está ali no meio termo, atrás do primeiro. Muito mais pelo fato do primeiro ter tido um fator uau, de novidade.

E por mais que Johnson tenha vendido o filme como o mistério mais difícil da carreira Blanc, de certa forma o mistério que o filme apresenta aqui é mais um que apenas parece que não será possível o detetive encontrar uma solução. Até mesmo por que o texto de Johnson envolve uma complexidade interessante dentro do gênero Whodunit (o chamado locked-room mystery, onde o como também é importante junto com o quem) com uma pitada de sobrenatural banhado com toque de religiosidade bem grande.

E por mais que interessante, empolgante, às vezes engraçado, e rebuscado (talvez o mais rebuscado dos três filmes), Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out é ofuscado não só pela presença carismática de Craig mais uma vez no papel como também de Josh O’Connor que aqui interpreta um padre com um passado atribulado e que se vê no meio de uma conspiração na medida que é transferido para uma nova, pequena, e fiel, congregação religiosa no interior.

No terceiro papel de destaque no ano, ao lado de The Mastermind e A História do Som, O’Connor entrega o melhor dos três aqui em Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out e realmente é o grande destaque do filme e a atuação que chama atenção ao longo das mais de 2h20min que o filme tem.

Como o atormentado Padre Jud, o ator serve como condutor para a trama que Johnson desenvolve para o filme e chega até a ofuscar o mistério que Blanc vem resolver aqui no longa. Afinal, a congregação e o próprio Monsenhor Jefferson (Josh Brolin, numa atuação agressiva baseada no grito e bem diferente do que vimos o ator em A Hora do Mal) não gostam nada de quando o jovem Jud chega em novas ideias e formas de como atrair novos fiéis para os cultos de domingo que são realizados com cada vez menos pessoas presentes. 

Photo by John Wilson/Netflix – © 2025 Netflix, Inc.

Mas entre os que estão presentes religiosamente na Nossa Senhora da Perpétua Fortaleza temos a betada Martha Delacroix (Glenn Close, sem medo de soar caricata principalmente depois da passagem na série Tudo é Justo), o caseiroSamson Holt (Thomas Haden Church), uma advogada Vera Draven (Kerry Washington num papel difícil aqui e que não acho que a atriz tenha encontrado o tom, infelizmente), Cy Draven (Daryl McCormack) um jovem político que usa o poder das redes sociais para suas aspirações, o médico Nat Sharp (Jeremy Renner) que vive um momento conturbado depois que sua esposa e a filha o deixaram, um autor de livros de sucesso chamado Lee Ross (Andrew Scott, sempre tão carismático) que está em busca do seu próximo hit, e uma violoncelista de renome chamada Simone Vivane (Cailee Spaeny meio que desperdiçada aqui depois de 2 papéis anteriores marcantes) que viu uma doença a afastar da profissão.

Todos eles têm personalidades distintas, e motivos diferentes de estarem sermão após sermão presentes no grupo seleto que compõe os mais chegados da paróquia. Coisa que é um trabalho para o texto de  Johnson que precisa lidar com diversas passagens que inflam a trama do filme que é construída aos poucos, a passos bem devagar, e nos levam para pistas para a identidade do assassino. Algumas nos levam para a resolução, outras são apenas firulas para dar um contexto para alguns dos personagens.

E também que é preciso entrar no passado deles, onde o roteiro de Johnson precisa ter tempo de apresentar também todos os outros participantes desse mistério que é apresentado aqui quando Monsenhor Jefferson é atacado e cai morto no chão, em cima do altar da igreja que ele trabalha e bem enquanto um culto se realiza. 

Assim, a culpa divina é colocada em xeque na medida que os fiéis começam, junto com Blanic, a pensar de uma forma lógica o que poderia ter acontecido. E claro, ao mesmo tempo, dar tempo para que o verdadeiro assassino se mantenha escondido. Ou como o filme brinca, será que o culpado não foi alguma coisa sobrenatural?

Na medida que o caso, e uma detetive implacável interpretada por Mila Kunis e um chapéu de polícia gigante, coloca Blanc contra a parede e Johnson o coloca em uma sinuca de bico sem ter por onde fazer a investigação andar, Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out nos brinda com mais um belo roteiro e diversos questionamentos que só o texto de Johnson poderia nos entregar. E um muito engraçado e afiado para um filme que lida com questões tão interessantes como esse.

Claro, a trama tem algumas reviravoltas em excesso, e leva um tempo maior para conseguirmos formar o quebra-cabeça que Johnson quer nos apresentar, mas quando a chavinha clica e tudo começa fazer sentido, o sentimento de alívio em que notar o que o diretor e roteirista quis contar com Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out acaba por dar certo é muito grande. 

Liderado pelo excelente Craig no papel, Vivo Ou Morto: Um Mistério Knives Out encerra a trilogia milionária de Blanc que começou nos cinemas e terminou na Netflix com um gostinho de quero mais. Mas, assim como o crime em si que pareceu humanamente impossível de se resolver seja pela logística do espaço em questão, da busca pela arma do crime, e pela identidade do assassino, a tarefa de continuar as histórias de Blainc está nas mãos de um hábil contador de história que com certeza vai conseguir resolver também esse mistério.

3,5/5 estrelas

Nota:

Filme visto à convite da Netflix em Novembro.

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out chega em 12 de dezembro.

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Miguel Morales

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