Enquanto o debate sobre o cansaço do público em relação aos filmes de super-herói continua em alta, produções originais, seja de terror ou comédias românticas, vêm comendo pelas beiradas nas discussões cinéfilas nas redes sociais e na imprensa especializada. E mesmo que Só Por Uma Noite (One Night Only, 2026) não vá representar para as rom-coms o que Obsessão (2026) representou para o terror, fica evidente que a engrenagem do cinema precisa desse tipo de equilíbrio entre grandes franquias e filmes como esse que chegam de forma tímida, seja por parte de não estarem 100% no radar do público ou por parte da estratégia de divulgação do estúdio que os lança.
E depois de colocar Sydney Sweeney e Glen Powell na telona em uma das comédias românticas mais faladas e debatidas online nos últimos tempos, o diretor Will Gluck acerta mais uma vez aqui com Só Por Uma Noite, um filme que apresenta uma premissa curiosa ao colocar dois outros atores em ascensão que se saem muito bem nesse tipo de projeto: Monica Barbaro e Callum Turner. Eles não são Sweeney e Powell, mas cumprem bem seus papéis, afinal, logo de cara dá para ver que Só Por Uma Noite não é o próximo Todos Menos Você, na medida em que o filme tenta no seu começo desesperadamente soar engraçadinho e ousado. Se por um lado esse sentimento é sentido nas cenas iniciais, onde Só Por Uma Noite começa acelerado e tenta te apresentar o contexto, a trama e também os dois protagonistas, que são pessoas bem diferentes uma da outra, pelo outro a narrativa se dá tempo para conhecermos mais desses dois em seus próprios ambientes e de forma individual.
E é por conta deles que dá certo. É por unir no mesmo filme Monica Barbaro (vinda de Top Gun: Maverick, após indicação ao Oscar por Um Completo Desconhecido e ainda em um dos filmes mais polêmicos do ano, o inédito Artificial) e Callum Turner (que passou batido pela franquia Animais Fantásticos, está cotado para ser o novo Bond e é mais conhecido por ser o Sr. Dua Lipa) que temos o toque final para essa combinação curiosa sobre a qual esse filme se debruça.
E parece ironia ver esses dois protagonistas quererem viver de amor num século dia de putaria. Ou pelo menos 12 horas. A ideia de apresentar uma sociedade onde o sexo fora do casamento não é legalizado, sendo passível de prisão, e apenas liberado durante uma única noite do ano é extremamente convidativa e faz a diferença aqui para Só Por Uma Noite. Junto a isso, colocar a figura de basicamente dois românticos num dia onde as relações carnais são o foco da vez dá a chance para o filme conseguir brincar com o arquétipo narrativo clássico de toda rom-com: os protagonistas vão ficar ou não juntos? E bem mais do que isso: como os comos, os quandos e os porquês dessa história vão se mesclar com a narrativa do filme.
Afinal, os protagonistas e os outros personagens do filme têm, como o nome já diz, “uma noite” para extravasar antes que seus marcadores saiam do verde e voltem para o vermelho e fiquem assim por mais um ano. Sim, tem isso, e eles funcionam como uma espécie de tatuagem que é muito legal de ver e descobrir ao longo do filme.
Com um tom até bastante político, os comos e porquês das regras desse mundo são bem inspirados, na medida em que casualmente os personagens explicam como essa sociedade chegou a esse ponto no meio do caos, dos flertes e das situações curiosas que Só Por Uma Noite apresenta. Esse “enemies to lovers” coloca esses dois personagens em um ritmo alucinante pela noite e pela busca de “fazerem aquilo” de uma vez. Muita energia acumulada, né minha filha? Mas Só Por Uma Noite é muito mais do que apenas o sexo em si. A busca desses personagens por viverem momentos mais íntimos coloca a cantora Allie (Barbaro) e o dono de uma pizzaria Owen (Turner) para, aos poucos, descobrirem mais um sobre o outro, quando eles se separam e se encontram ao longo da noite.
O timing cômico afiado, somado ao roteiro esperto (de Travis Braun) e à trilha sonora nos abraçam como só uma pizza e uma coquinha zero, sabe? Afinal, depois de correrem pela cidade atrás de uma camisinha, invadirem uma festa descolada, Allie conhecer um grande astro da música (Charlie Gillespie) depois de cair no charme de um trambiqueiro (Andrew Burnap), e Owen deixar a namorada Malika (Maya Hawke, não no seu melhor momento) viver a noite dela, e também ele mesmo deixar uma transa certa de lado com uma garçonete de plantão (ninguém mais que Julia Fox) e depois com uma socialite (Ella Loudon), eles se encontram na pizzaria do protagonista e mostram que talvez a coisa que eles estavam realmente procurando era aquela de que estavam fugindo o tempo todo.
E se você, treinado e formado em rom-com como eu, acaba por se inclinar na sua poltrona e se aproximar da telona para ver finalmente Allie e Owen ficarem juntos, vai perceber também que em sua essência Só Por Uma Noite é mesmo uma autêntica e verdadeira rom-com e que esses dois pombinhos precisam de mais alguns obstáculos antes de ficarem juntos.
E o filme funciona por conta dos dois. Barbaro está deslumbrante, entrega uma presença supermarcante e cativante no filme. Afinal, Allie não é nada daquelas mocinhas típicas. Ela chega até a ser meio pedante e chata, mas a atriz vende essa personagem como ninguém e está muito bem. O mesmo vale para Turner, que mostra que mais do que nunca o estilo de homem que você não sabe se é charmoso ou só britânico, e que tem ajudado Tom Holland, Mike Faist, Andrew Scotte Josh O’Connor, ataca novamente. Só Por Uma Noite exala uma energia palpável e sentida em tela e é muito bom ver pessoas bonitas nessa noite maluca em Nova York. Talvez, o maior crime dessa Uma Noite de Crime aqui seja nos fazer acreditar que pessoas como Barbaro e Turner teriam problema de sair com alguém nesse dia (noite!) especial.
E à medida que o texto de Braun continua a impressionar com sacadas espirituosas (as paródias de músicas são um show à parte) e não perde a oportunidade de tirar sarro das rom-coms, faz também com que essa trama gire de acordo com o esperado para esse tipo de filme e entregue declarações e gestos grandiosos, músicas chiclete e, claro, até um flashmob.
No final, Só Por Uma Noite não inventa a roda, mas faz o suficiente para se destacar no gênero e entregar um divertido, tesudo e bacana longa. E fica claro que, no meio de produções épicas, grandiosas, que batem recordes de bilheteria e se catapultam para a temporada de premiações, Só Por Uma Noite está ali para lembrar do feijão com arroz.
Só Por Uma Noite chega em 20 de agosto nos cinemas nacionais.
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