Por mais que Ponto Sem Retorno (The Dog Stars, 2026) tenha na direção um nome como Ridley Scott, fica claro que, como filme, não consegue se desvincular de sua origem literária nem deixar de soar claramente como uma verdadeira adaptação de livro e desesperadamente precisava de algumas mudanças.
Narrativa e estruturalmente, a sensação que temos é a de realmente acompanhar a leitura de diversos capítulos transpostos para a telona. E se Mark L. Smith (que cuidou dos roteiros de O Regresso e A Filha do Rei do Pântano) não consegue fazer a transição da história vista no livro de Peter Heller, isso não quer dizer que Ponto Sem Retorno deixe de ser um filme com paisagens belíssimas para acompanharmos e até contemplarmos. Pelos anos de experiência (o diretor já está na faixa dos 80 anos) e pelo time competente de outras áreas, Scott consegue traduzir esse drama de um futuro pós-apocalíptico em uma linguagem visual que chama a atenção.
Mas nem tudo são flores aqui. Afinal, de certa forma, Ponto Sem Retorno flerta mais com a estética de uma grande produção para streaming do que com um evento cinematográfico. Claro, ainda existem coisas boas que fazem valer a experiência de ver este filme na telona. Uma delas é a presença de Jacob Elordi.
Vindo de uma indicação ao Oscar, o ator realmente segura bem as pontas como protagonista e consolida, em mais um projeto, seu espaço em Hollywood. Ele dá vida a Hig, um ex-mecânico que insiste em acreditar na humanidade mesmo após o colapso da sociedade por uma pandemia devastadora que matou boa parte da população.
Com a ideia fixa e em busca de um refúgio ideal para voltar aos bons tempos, ele vive sobrevoando os arredores da cidade de Denver, indo e vindo em missões a bordo de um avião improvisado atrás de remédios e munição em lugares completamente abandonados. Vivem ele, um cachorro chamado Jasper e um colega veterano (Josh Brolin) no meio do nada.
A dinâmica que o filme apresenta em seus momentos iniciais se desenrola lentamente enquanto acompanhamos as viagens de avião de Hig, passando inclusive por uma fazenda vizinha de mórmons, por locais vazios e sem ninguém, como em The Walking Dead. Enquanto o cenário pós-apocalíptico introduz aos poucos esses personagens, nós, espectadores, levamos um tempo para entender os comos e porquês dessa sociedade e como o ambiente desolado, junto com a inevitável perda e os encontros perigosos com gangues de mercenários sanguinários, afeta as perspectivas deles.
Como falamos, Ponto Sem Retorno segue a cartilha narrativa de contar essa história de forma simples e sem muitos grandes momentos. Claro, existem alguns aqui que movimentam a história para a frente (sim, gente, o cachorro morre, tá legal?), mas é tudo feito para vermos como esses personagens precisam lidar com as adversidades que surgem quando Hig cruza o caminho de um andarilho em uma de suas aventuras até o hospital e chama a atenção de mercenários.
Sem a mesma sutileza dos filmes da franquia Extermínio, Ponto Sem Retorno meio que é um filme que te move da inércia dos acontecimentos. Afinal, Higg deixa o acampamento onde vive, pega seu avião e parte em busca da voz no rádio que surge de tempos em tempos com a promessa de um santuário.
E assim seguimos. Ponto Sem Retorno vai para o seu novo capítulo, o momento em que Higg cruza o caminho de uma jovem estudante de medicina chamada Cima (Margaret Qualley) e seu pai ranzinza, Pops (Guy Pearce), que também vivem isolados. É curioso notar o paralelo: vemos Higg sair de seu próprio isolamento para atrapalhar o dos outros; ele considerava os demais como invasores, mas está ele mesmo invadindo terras alheias.
O filme toma um ar e deixa o romance entre Higg e Cima florescer à medida que eles tentam consertar o avião para, logo depois, uma nova invasão acontecer e partirmos para um novo capítulo, no qual o grupo recebe uma mensagem com uma voz rouca, ao mesmo tempo convidativa e bastante autoritária.
Ponto Sem Retorno também embarca em seus momentos mais doidos e surreais quando o grupo cruza o caminho com a aeromoça Darlene (Allison Janney), que comanda um espaço com temática retrô que parece um grande spin-off da série Fallout, cheio de cheio de aviões, muita munição e um exército que prova que as coisas não vão bem para ninguém mesmo nesse pós-apocalipse.
À medida que o longa garante uma certa dose de ação e adrenalina nesses momentos finais, tendo anteriormente entregue apenas uma boa cena em que o personagem de Josh Brolin usa óculos de visão noturna para acabar com os invasores de uma vez, Ponto Sem Retorno parece nunca abraçar efetivamente o tom de urgência tão presente em outros projetos do gênero. E, talvez, seja isso que tenha feito falta aqui. O material promocional fez parecer que ter tínhamos um grande blockbuster de final de agosto, mas recebemos um drama reflexivo e melancólico. No final, o que temos é uma obra contida que vale pelas boas atuações de seu elenco conhecido, mesmo parecendo nunca atingir a energia de um clássico do gênero.
Ponto Sem Retorno chega aos cinemas nacionais em 27 de agosto.
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