Lembram quando lá em 2022, a Paramount Pictures tomou a decisão de lançar o longa Sorria nos cinemas depois que, segundo reportagens na época, o filme, que iria sair no streaming, acabou sendo bem avaliado nos testes? E, depois que efetivamente saiu nos cinemas, foi bem aceito pelo público, pela crítica, fez dinheiro, e realmente se tornou uma nova franquia dentro do estúdio, tanto que gerou uma sequência alguns anos depois.
Pois é. Mas, definitivamente, não dá para dizer o mesmo de Passageiro do Mal (Passenger, 2026). Novo Sorria? Tá mais para chore, onde aqui esse o novo terror da Paramount perde o rumo da estrada e deveria ter ido para o streaming, sem uma parada nos cinemas. Claro, as dicas de que não iria sair muita coisa de boa nesse novo terror do estúdio eram bem grandes, começando pelo fato de que foi um filme muito mal divulgado. A falta de um marketing efetivo, a falta de sessões antecipadas para a imprensa (pelo menos no Brasil) e um material promocional que não chegou a fazer um certo burburinho online já alertavam que, talvez, era melhor nem parar para ver esse longa.
E realmente, quando tem cara, cheiro e se comporta como tal, é porque é. O que é uma pena. Afinal, a premissa apresentada aqui até que é interessante: uma entidade do mal que se apodera dos viajantes e apresenta uma mitologia sobrenatural por trás até que bacana e que persegue um casal de protagonistas que vai encarar essa jornada e tentar sair com vida dela.
Mas Passageiro do Mal falha em todos esses pontos. Com 1h30min, Passageiro do Mal parece um grande (só que ruim) episódio da série Supernatural, mas ao qual falta, desesperadamente, o carisma que Jensen Ackles e Jared Padalecki tinham. Afinal, quando o casal Tyler (Jacob Scipio) e Maddie (Lou Llobell) embarca para viver uma vida nômade e parte para morar em uma van, eles vão cruzar com diversos percalços maiores do que não terem água quente, uma cama com lençóis recém-passados e não serem incomodados por vizinhos que fazem a sonda da vizinhança solidária.
Sinto que falta um sentimento de urgência para o texto de Passageiro do Mal (escrito por Zachary Donohue e T.W. Burgess), que demora para fazer com que o casal de pombinhos comece a notar que alguma coisa estranha está rolando. E quando, efetivamente, faz isso, precisa se apoiar em repetições visuais para firmar as regras desse universo a cada 15 minutos. Seja pela marca na lataria da van com os três riscos, ou pelos desenhos nas paredes, ou até mesmo com o livro que Maddie encontra num brechó, ou as regras que eles são apresentados e que envolvem “não pare” ou “não viaje à noite”. Ficou: ??? Pois é, eu também.
É como se tivéssemos em Crepúsculo, lá no início dos anos 2000, onde a Bella vai para a cidade grande encontrar um livro sobre criaturas para, depois, na cena seguinte, largar o objeto e procurar online sobre vampiros. Passageiro do Malsofre da necessidade de ficar se explicando o tempo todo, principalmente quando Tyler e Maddie já foram atacados pela criatura demônica algumas vezes e resolvem ir falar com uma senhora (Melissa Leo) que, supostamente, sabe mais do que pareceu quando eles cruzaram caminho, e fala como se estivesse querendo enrolar a dupla.
E nem mesmo os jumpscares que o longa tem, e que são até bem-vindos, mesmo que sem-vergonha, colocados ali apenas como muletas para a trama ter alguma coisa com que fazer o espectador dar uma pulada na cadeira. Claro, o diretor André Øvredal até entrega bons visuais aqui, e eu nunca mais vou ver A Princesa e o Plebeu, o clássico dos anos 50 com Audrey Hepburn e Gregory Peck, da mesma forma por conta da cena em que o casal é atormentado pela entidade durante uma sessão com um projetor e um lençol branco no meio da floresta.
Øvredal capricha na construção da tensão para algumas cenas, principalmente uma, quando o pneu da van estoura e o casal precisa parar na estrada no meio da noite. Iluminada apenas pelas lanternas traseiras da van, destacando o vermelho do pisca-alerta no meio da escuridão, a cena é bastante bonita e tem uns momentos bem tensos, mas tudo é muito simplório, básico, e fica claro que o diretor não sabe aproveitar as poucas coisas que acabam por dar certo.
E o fato de que Passageiro do Mal não tem nenhum grande nome chama também atenção. Claro, todo ator de Hollywood precisa começar de algum lugar, e não é que Scipio e Llobell entregam atuações ruins, mas é que pelo menos um deles tinha que ter mais experiência e fazer o trabalho pesado para chamar o público. Porque lá pela metade, quando ainda faltam mais 40 minutos e o casal decide procurar formas de se livrar da maldição, a necessidade de um tom mais dramático faz falta para Passageiro do Mal.
No final, o que temos aqui são momentos bem ruins, assustadoramente ruins, e que só mostram o desespero que deve ter sido montar e editar esse filme. Na tentativa de lançar um filme de terror que comece uma nova franquia e seja o assunto do mês na rodinha cinéfila e nas redes sociais, Passageiro do Mal apenas vai ser engolido pela furacão que tem sido Obsessão, e vai ficar uma ou duas semanas, com sorte, nos cinemas, ser esquecido e depois desejar ser lembrado quando entrar no Paramount+ em algum momento do ano. Particularmente, essa porta fechou e Passageiro do Mal apenas acelerou sem muito rumo mesmo. Uma dica: fujam!
Passageiro do Mal está em cartaz nos cinemas nacionais.
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