Os Roses: Até Que a Morte Os Separe | Crítica: Estou do lado da briga!

É curioso pensar que quando a 20th Century Studios anunciou um projeto de The War of Roses alguns anos atrás, eu achei que seria um longa sobre a Guerra das Rosas, aquele período histórico em que as famílias Lancaster e York (em que cada uma era representada por uma rosa de uma cor diferente) disputavam o trono inglês lá nos anos 1400 e lá vai bolinhas. Sim, what a nerd!
Afinal, o longa seria estrelado por atores premiados e multifacetados como Olivia Colman (A Favorita, The Crown) e Benedict Cumberbatch(Ataque dos Cães, Doutor Estranho), então por que não um drama histórico né? Mas eu estava errado. Ou quase isso.

Mesmo nome, outra guerra. Os Roses: Até Que a Morte Os Separe (The Roses, 2025) é uma nova versão baseada no romance A Guerra dos Roses do autor Warren Adler que já foi adaptada para os cinemas em 1989. Pelas mãos do diretor Danny DeVito(sim, o Pinguim em Batman: O Retorno), o filme foi estrelado por Michael Douglas e Kathleen Turnernos papéis principais desse casal, os Roses, que após anos de relacionamento começam a levar esse casamento para situações um pouco mais caóticas do apenas uma bateção de porta.
Eu não tinha visto o longa, mas vi para me preparar e dá para dizer que Os Rosesde 2025 se difere e muito de Os Rosesde 1989. E digo que você não precisa fazer essa lição de casa não. E particularmente, o grande destaque dessa nova versão fica com Colman e Cumberbatch que estão incríveis juntos e são o que movem o filme e a trama desse casal que passa por altos e baixos na relação.
E com dois atores desse calibre dá para dizer que eu fiquei do lado da briga. Afinal, Os Rosesfaz um retrato extremamente afiado sobre esse relacionamento, sobre relacionamentos em si, e a vida a dois. E isso é sentido em tela, afinal, grande parte do filme é vermos Theo (Cumberbatch, de folga de Doutor Estranho e depois da ótima minissérie Eric na Netflix) e Ivy(Colman, cada mais se firmando com uma das melhores atualmente no ramo) discutindo e expondo anos de ressentimento, palavras não ditas, e culpa.
O texto é de Tony McNamara que trabalhou com Colman em A Favorita (a atriz levou o Oscar pelo papel) e depois foi fazer Cruella e Pobres Criaturas com Emma Stone que trabalhou com Colman no mesmo filme. Os Rosesestá no mesmo calibre desses outros filmes? Não, mas o ar teatral que McNamara imprime, as tiradas sensacionais, os diálogos afiados, as discussões e toda a construção desses personagens e os motivos que fazem esse casal começar a notar que a presença, o só respirar do lado, e no final a existência em si de cada um, já é motivo de querer pular um no pescoço do outro.
E Colman e Cumberbatch tiram isso de letra e estão muito bem aqui na medida que temos um panorama geral do relacionamento dos dois ao longo dos anos, desde que Ivy (uma aspirante a chef) e Theo (um arquiteto de nome do cenário de Londres) se conhecem, se encantam um com outro, se casam e partem para os EUA para viverem juntos. Para depois, anos mais tarde, estarem em pé de guerra.
O mais bacana de Os Roses é que o longa leva seu tempo para nos fazer conhecer esses personagens, suas personalidades, e o que levaram um a odiar o outro, mesmo que eles se amem. Ambos são craques nos arcos de seus personagens que são contados de forma paralela e as atuações dos dois se completam e se mesclam já que os dois tem boas trocas e num não sobrepõe o outro.
Colman constrói Ivy como a figura complexa, uma que ficava de escanteio para o marido ser a parte do casal que tinha sucesso de uma forma extremamente sutil de se acompanhar, mas está ali e é notada. Principalmente, quando depois lá para metade do filme, a personagem ganha uma virada e ela começa a ser a figura que tem sucesso, quando seu restaurante (com um trocadilho infame e que meio que dita o tom e o humor do filme) explode e ela é a nova sensação culinária do momento.
Muito mais clientes, entrevistas, capas de revista, franquias pelo país e muito muito dinheiro. É de fazer inveja para o time de O Urso(que curiosamente a atriz interpretou uma chef renomada por lá também na temporada anterior da atração também da Disney). Já Cumberbatch faz o trabalho oposto, na medida que o bem sucedido, mas extremamente arrogante Theo vê um projeto gigantesco ir por água abaixo (literalmente um edifício que ele projetou vai abaixo numa tempestade) e isso custa sua carreira. O arquiteto passa então a ser o dono da casa, cuidar dos filhos pequenos, coisa que faz por colocar eles para correr e cuidar da saúde.
Assim, o filme trabalha nessa polarização em que os personagens vivem ao longo dos anos com Ivy cuidando de uma grande franquia de restaurantes e Theo da criação dos filhos do casal. O tom bem humorado, as alfinetadas, e a criação da casa dos sonhos de Theo com o dinheiro de Ivy vão por costurar a narrativa que nos levam para o momento que os filhos já estão maiores, partem para viverem em um tipo de colégio interno, e Theo e Ivy se veem sozinhos no casarão.
Por que é isso que os dois estão, sozinhos, mesmo com a presença um do outro. Já que o filme pinta esses personagens como pessoas que são casadas com seus trabalhos também. Ufa, é muita coisa que o texto e os atores conseguem passar em pouco mais de 1h40min de duração. E se McNamara dá muito os atores terem que trabalhar o diretor Jay Roach consegue deixar todas as passagens como se estivéssemos ali com eles, ouvindo atrás da porta.

Os Rosesé um trabalho impecável dos protagonistas que sim estão sozinhos, mesmo que a trama use um elenco de apoio de fazer inveja para mostrar o motivo que eles estão sozinhos e não se dão muito bem com os vizinhos e colegas de trabalho americanos. Andy Samberg, Kate McKinnon, Zoë Chao, Jamie Demetriou, Ncuti Gatwa e Sunita Mani estão ali para dar volume para o filme, claro, mas estão todos muito bem, principalmente na cena do jantar é que uma que marcou o original e aqui em 2025 é muito mais interessante de se ver.
Os sempre divertidos Samberg e McKinnon são os que aparecem mais como um casal de amigos, e por mais que estejam bem, sinto que repetem algumas piadas e situações ao longo do filme. Principalmente McKinnon, como a Amy que vive por dar cima de Theo, mas a atriz faz isso de uma forma tão engraçada, tão ela, que é divertido ver ela pular na tela com os olhos arregalados no colega de tempos em tempos. E o mesmo vale para Zhao que interpreta uma colega arquiteta rival de Theo que tem boas cenas (a do avião é muito boa!), mas que ficam no mesmo tom toda vez que a personagem aparece.
A única coisa que eu senti realmente falta foi para presença do advogado que no original era DeVito. Mas talvez foi McNamarra seguindo o livro e querendo se afastar do roteiro do outro filme. O que é uma pena, afinal, temos a figura da advogada de Ivy na presença Allison Janney que aparece pouco mais eleva a cena quando vemos o casal na tentativa de ver quem vai sair com que no processo de divórcio.
Entre diversas taças de vinho, um cigarrinho suspeito para acalmar os nervos, e a disputa para ver quem vai comandar o controle de voz automatizado da mansão, Os Roses só escalona a narrativa para alguma coisa da mais maluca possível (canetas de adrenalina, alguém saca uma arma, facas começam a voar) para quando para chegarmos no embate final entre Theo e Ivy, fica claro que eles vão defender suas posições até o final e mostrarem que o ditado “casados até que a morte os separem.” é mais real do nunca aqui.
Os Roses: Até Que a Morte Os Separe chega em 28 de agosto nos cinemas nacionais.











