É curioso notar a versatilidade da atriz Amanda Seyfried que em questões de meses entregou atuações bem distintas, em dois filmes bem distintos. Primeiro no saboroso A Empregada (um dos maiores sucessos recentes de bilheteria e público aqui no Brasil) e agora com cabeçudo O Testamento de Ann Lee (The Testament of Ann Lee, 2025) que chega aos cinemas nacionais um pouco apagado depois de ter feito pré-estreia no Festival de Veneza lá no ano passado, ter sido comprado pela Searchlight Pictures (o selo da Disney para filmes mais cult) meses depois, e não ter se materializado na temporada de premiações.
A Empregada deveria ter sido o catalisador para Amanda Seyfried e O Testamento de Ann Lee na temporada, assim como foi o novo Predador para Elle Fanning e Valor Sentimental que garantiu uma indicação para essa outra loira em Hollywood. A cartilha filme comercial + filme de arte, curiosamente não deu certo aqui, o que é uma pena, afinal, Seyfried canta, dança e impressiona em O Testamento de Ann Lee e tanto ela, quanto a diretora Mona Fastvold mereciam ter tido mais destaque.
Afinal, o longa seguiu os mesmos passos de O Brutalista, longa do diretor Brad Corbet lançado no mesmo festival em 2024 e que foi indicado ao Oscar em diversas categorias, onde aqui, ele atua como co-colaborador no roteiro ao lado da esposa. Os dois filmes não lidam com temas fáceis, onde, definitivamente, O Testamento de Ann Lee me deixou ainda mais curioso para saber o que eles vão fazer em seguida.
Mas não ter sido materializado na temporada de premiações faz de O Testamento de Ann Lee um filme ruim? Absolutamente que não. Mas, é nítido que O Testamento de Ann Lee é sim um filme difícil e com uma temática bem fora da curva e que não é um filme para todo mundo ou que vai agradar todo mundo. Principalmente os religiosos mais fervorosos. Mas é para isso que o cinema serve e O Testamento de Ann Lee propõe esse tipo de discussão e de certa forma incomodo. Afinal, a história de uma mulher inglesa que fugiu para os EUA, criou uma seita religiosa que se expressa pela dança e pelo canto e ainda num filme musical é, sem dúvida, uma proposta que não é bem apelativa para o grande público.
E vale notar que O Testamento de Ann Lee não é um musical em si, e sim, um filme com algumas longas passagens musicais. E aqui existe alguma coisa bem fascinante, intrigante e convidativa nessa história e que Fastvold e Seyfried acertam e cativam ao longo das mais de 2 horas e 15 minutos que o longa tem.
Seja a presença feroz, magnética, visceral que Seyfried entrega, seja a recriação de época, os figurinos caprichados, os complexos números de dança, e a história dessa figura que se colocou no centro de tudo e arrebatou inúmeros fiéis para o movimento conhecido como “Shaker” que, como o filme explica, tinha regras e ensinamentos bem específicos e rígidos referentes ao contato mais íntimos entre pessoas (era exigido o celibato para todos) e que acabou por afastar muito das pessoas do círculo próximo de Ann Lee que depois de um tempo foi considerada a líder do grupo e intitulada Mãe Lee por eles.
E O Testamento de Ann Lee acaba por ser um filme sobre essa figura histórica que vai do momento que a personagem nasce até sua morte. Mas isso serve para que o texto de Fastvold e Corbet consiga ambientar o espectador não só no contexto histórico que o filme se passa, mas também nas motivações, e nas razões que a personagem toma as decisões que serviram de base para ela moldar as normas da religião principalmente quando o grupo formado por ela e seus fiéis, o marido Abraham (Christopher Abbott), o irmão William (Lewis Pullman), a jovem Mary (Thomasin McKenzie) e diversos outros partem do interior da Inglaterra, em Manchester, onde sofriam perseguições, para a colônia do outro lado do Oceano e que hoje conhecemos hoje como os EUA.
O Testamento de Ann Lee segue a cartilha básica de qualquer filme ou projeto sobre alguma coisa que é criada do nada e ganha apelo popular. Do momento que apresenta as dificuldades, para a parte que tudo parece dar errado, para depois o momento que as coisas decolam, e também como fazer para manter tudo aquilo de pé.
Mas existe alguma coisa que nos faz torcer para Ann Lee, afinal, os acontecimentos na vida dela, a perda dos filhos um seguido do outro, a internação no manicômio onde uma vez ela trabalhou de faxineira, o marido que a deixa, as perseguições por ser apenas uma mulher pregando em cima do palco, e tudo mais mostram o quão diferente foi o tratamento com ela em relação a diversos outros nomes que tiveram trajetórias similares.
E tudo isso é marcado por danças performáticas, cantos que saem de dentro desses personagens de uma forma animalesca, e claro, por atuações impressionantes de todos os envolvidos. Seyfried lidera o grupo, mas a presença de Pullman é extremamente bem vinda aqui, mesmo que toda a trama do personagem seja diluída na narrativa, afinal, o foco aqui é a irmã. E é curioso notar que o mesmo acontece com a personagem de McKenzie, mesmo que seja ela que narre a história dividida por capítulos (com cards estilizados e belíssimos que dão dicas do que vai acontecer em seguida na história) só vai ganhar um pouco mais de destaque nos momentos finais.
É uma imersão na cultura, no modo de vida, e na curiosa dinâmica que as pessoas que faziam parte dessa comunidade (6000 pessoas no auge) que é base convidativa de assistir e acompanhar. Seja por conta dos costumes, do trabalho na marcenaria, e tudo mais que é refletido no que o filme nos apresenta para representar tudo isso e que Fastvold preza por focar cada detalhe na hora de nos contar essa história.
E Fastvold faz isso, sem julgar, ou até mesmo glamourizar, essa história dessa figura que se considerava a segunda reencarnação de Cristo como uma forma de processar as tragédias e o luto proeminente e seguir em frente em sua vida. No final, fica claro que O Testamento de Ann Lee é um filme impressionante, sem dúvidas, uma experiência avassaladora em um filme que é, de fato, bastante humano em sua proposta por mais que lide com questões morais grandiosas.
O Testamento de Ann Lee chega nos cinemas nacionais em 12 de março.
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