Muito se tem falado de 2026 ser o ano de Robert Pattinson, Zendaya e Anne Hathaway, mas pouco se fala de também de Yahya Abdul-Mateen II que também tem tido um ano bastante movimentado. O vencedor do Emmy não só estrelou duas séries grandes no streaming (Magnum no Disney+, que lhe rendeu mais uma indicação para a premiação de TV e foi renovada e cancelada em uma questão de dias, e Chamas da Vingança na Netflix) como como também está em dois filmes em 2026: No Limite da Justiça (By Any Means, 2026) e o inédito filme de David Fincher sobre Cliff Booth, que chega nos próximos meses junto com um elenco gigante de nomes conhecidos.
Claro, não são projetos do mesmo porte e magnitude que os dos colegas acima, mas aqui o ator é quem se destaca e realmente está muito bem em No Limite da Justiça. É ele quem comanda e dita o tom dessa história que se passa no interior dos EUA, nos anos 60, e no meio de um dos períodos mais tensos do país: o da segregação racial.
E mesmo que esse recorte, baseado numa história real, acabe por não entregar nada de novo sobre esse período, é o trabalho de Abdul-Mateen II que faz toda a diferença aqui. Afinal, o ator interpreta a versão ficcional de um agente do FBI que comandou uma operação não oficial para tentar desvendar um caso que envolvia um ataque da organização de supremacia racial Ku Klux Klan a um dos líderes da NAACP, organização de direitos civis americana em prol das pessoas de cor, e que lutou para conseguir implementar diversas leis no período.
No Limite da Justiça mostra a história desse oficial do governo quase como se fosse uma história de amadurecimento; afinal, Wayne Strider (Abdul-Mateen II) começa o filme como um funcionário certinho, idealista, que veste a camisa do FBI, quer seguir tudo que aprendeu no treinamento e aplicar as regras durante esta sua primeira missão, e que começa a perceber que, no mundo daquela época, as coisas não vão ser tão fáceis assim.
Com o chefe (David Strathairn) no seu pescoço e olho na operação, Strider vai trabalhar com um informante não oficial da organização, um membro da máfia chamado Gregory Scarpa (Mark Wahlberg, cheio de próteses faciais, mas desfilando de regata pelo filme todo e de volta para os cinemas depois de filmes para o streaming), e vai ter que aprender com ele um truque ou outro.
É o clássico filme que une duas figuras completamente diferentes uma da outra, com personalidades diferentes e visões de mundo diferentes. É quase como um filme que tentasse replicar o que tivemos com Green Book. Só que No Limite da Justiça coloca esses dois para investigar um caso no interior do Mississippi. Então acaba por ser quase como aquilo que estamos vendo na série Lanternas: um policial branco e um policial negro vendo o mundo através de suas perspectivas de vida e vivências, e notando como as coisas são bem diferentes para eles.
Enquanto eles buscam informações e pistas sobre quem estava presente no atentado contra a vida de Vernon Dahmer (Giancarlo Esposito, numa breve participação, mas com uma cena em especial marcada por monólogo excelente), sua esposa e família, a união desses dois personagens é o que guia a história para frente, enquanto eles precisam lidar com donos de lojas de armas raivosos, mecânicos que aceitam subornos e ainda diversos outros membros da organização supremacia racial que comandava a região sul dos EUA na época da segregação.
E Abdul-Mateen II consegue realmente mostrar ao longo do filme, e com mais uma atuação muito boa de ver, as mudanças nas atitudes do personagem enquanto ele começa a burlar as regras influenciado pelo colega pilantra. Principalmente porque Scarpa é adepto do “bater primeiro e perguntar depois” e começa a sair no soco com os membros da Ku Klux Klan que puseram fogo na casa do personagem de Esposito numa cena extremamente violenta.
É satisfatório ver esses personagens começarem a conseguir algum tipo de justiça para a comunidade, que vê a morte de uma das suas principais vozes abalar ainda mais os moradores do local, à medida que ele e a esposa (Nicole Beharie) começam também a se tornar alvos.
Mesmo que a direção de Elegance Bratton seja bastante protocolar e os conflitos e situações em que o texto de Sascha Penn coloca os personagens não tenham muito tempo para serem desenvolvidos e criem momentos narrativamente um pouco pobres, é nas cenas em que temos como foco a dinâmica de Abdul-Mateen II e Wahlberg em vez das cenas de porradaria ou de lugares sendo queimados que o filme se sobrepõe à simplicidade com que tudo é apresentado aqui.
No final, No Limite da Justiça não é um filme ruim, só um que tenta a todo custo buscar uma forma de contar essa história sem soar mais do mesmo. E até consegue, mesmo que com muitos altos e baixos. E fica claro que isso ocorre muito mais por mérito de Abdul-Mateen II, que tira água de pedra aqui, do que por qualquer outra coisa.
No Limite da Justiça chega em 17 de setembro nos cinemas nacionais.
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