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Mostra SP | Bugonia | Crítica: Novo da parceria Yorgos Lanthimos e Emma Stone pode não ser o melhor, mas diverte.

Nos últimos anos a parceria do diretor grego Yorgos Lanthimos e da atriz Emma Stonetem rendido bastante (indicações, prêmios, aparições na mídia e etc) e com Bugonia, essa nova empreitada dos dois, não seria nada diferente do que podemos esperar de um novo projeto da dupla. E mesmo que esse novo filme dos dois acabe por não ser o melhor da lista, claramente no meio das doideiras conspiratórias que são apresentadas aqui, é um que diverte, sem dúvidas.

Afinal, Bugonia trabalha com uma questão muito curiosa, e, de certa forma, simples: e se uma poderosa CEO da indústria farmacêutica fosse de fato uma alienígena com planos maquiavélicos para a Terra?

Foto por Atsushi Nishijima/Focus Features/Atsushi Nishijima/Focus Features – © Focus Features
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E o texto de Will Tracy, que trabalhou em episódios da série vencedora do Emmy Succession e em O Menu, acerta ao passar o sentimento de estranheza que Bugonia quer passar. E que consegue entregar alguma coisa bem divertida de se assistir.

Baseado num longa coreano, Bugonia conta a história de dois caras, primos na realidade, Teddy (Jesse Plemons, ótimo aqui) e Don (Adain Delbis) que reuniram “provas” o suficiente e “conseguiram” provar, depois que a sequestram, que a mega executiva Michelle (Stone) é, de fato, uma alienígena.

E no meio da situação política e social que vivemos, onde ativistas da conspiração e lunáticos atrás de telas de computador ganham, e tem suas vozes, projetadas e amplificadas, é curioso ver o caminho que Bugonia percorre ao longo do filme. Afinal, as atuações do trio principal, o texto de Tracy, e a direção de Lanthimos fazem com que o filme abrace, de uma forma cômica, a questão: e se eles estiverem mesmo falando a verdade?

É de certa forma uma releitura do conto de Pedro e Lobo, só que aqui com a indústria farmacêutica e as conspirações on-line como pano de fundo. E depois do pomposo A Favorita e do extravagante Pobres Criaturas, Lanthimos consegue trabalhar bem no enxuto Bugonia que realmente se passa quase num único cômodo: o porão onde Teddy e Will mantêm Michelle como refém.

Foto por Atsushi Nishijima/Focus Features/Atsushi Nishijima/Focus Feature – © Focus Features

Depois de passarem a máquina zero nos cabelos hidratados da CEO, já que segundo eles o cabelo é a forma como ela se comunica com a nave na galáxia que ela supostamente vem, a dupla começa a questionar a executiva para saberem mais sobre os planos dela. E ela, claro, nega e tenta convencer os dois da doideira que eles se meteram. 

E se era para estarmos do lado de Michele, a própria personagem se mostra uma detestável 1% e que nos faz querer ficar do lado da dupla de sequestradores. É um trabalho primoroso de todos os envolvidos.

E por se passar quase nesse único ambiente, e ter esses personagens em incríveis diálogos na medida que Michele tenta sair dessa viva com o poder da lábia, Bugoniasoa bastante teatral nessa jornada. É um filme em que cada linha, cada diálogo, movimentação física desses personagens e a forma como eles transitam em cena, soa como um grande jogo de xadrez.

É curioso notar as passagens em que o tom da trama muda, quando as dinâmicas de poder entre sequestrador e sequestrado oscila ao longo das horas que Michelle está capturada. E quanto mais Teddy e Don apresentam provas e mais provas, nós espectadores ficamos com o sentimento de “Não seria engraçado se ela fosse mesmo uma alienígena?” e que Lanthimos não poupa esforços de visualmente contribuir com essa indagação.

Stone, segue comprovando ser mesmo uma das maiores atrizes da geração e aqui dá um outro show de atuação, sem tamanho. É um prazer colossal ver a atriz em tela e ela demanda uma atenção aqui. Seja por conta da careca que destaca os grandes olhos da atriz, seja pela voz imperativa de CEO. A atriz consegue demonstrar em tela a forma como Michele parece sempre estar um passo à frente de seus sequestrados, até ela não estar mais.

Plemons também está muito bem. O ator vem lutando para garantir um Oscar há algum tempo e tem pego papéis extremamente difíceis nos últimos tempos e aqui em Bugonia entrega o de sempre depois de roubar as atenções em Guerra Civil e estar muito bem também em Tipos de Gentileza.

Mas Bugoniasofre por ser um filme com uma questão simples que é cozinhada por muito tempo e quando finalmente entrega sua resposta é uma coisa meio decepcionante, mesmo que não deixe de ser engraçada a forma como tudo é apresentado. Meio que foi igual o final de Vale Tudo, a gente até queria que Odete Roitman tivesse viva no final, mas, quando acontece parece que foi tudo um grande moussee o que vimos não foi lá grande coisa.

Fora que ao entregar aquele final, por mais cômico e satírico que seja, meio que parece que Lanthimos valida que todas as vozes precisam ser ouvidas quando sabemos que nem todas as vozes que bravejam na internet precisam ser ouvidas. No final, Bugonia, mesmo que interessante, acaba por ser mais legal pelo o que representa do que entrega. Mas é mais uma parceria extremamente bacana de Stone e Lanthimos que é sempre surpreendente vermos o quão doido deve ser estar na mente desses dois em alguma reunião de planejamento de um novo filme deles.

Filme visto na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em Outubro.

3,5/5 estrelas

Bugonia chega nos cinemas nacionais em 27 de novembro.

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