É inegável que Michael (2026) seja uma grande, barulhenta e contagiante celebração da carreira de Michael Jackson. Mas, ao mesmo tempo que o filme conta a trajetória do cantor que saiu do interior dos EUA, para lotar shows em diversos cantos do mundo, é bem curioso notar a abordagem simples que foi escolhida para representar a figura complexa e praticamente única que foi Michael Jackson. O que temos aqui, portanto, é um filme que acaba por entregar um lado A de uma história que desesperadamente precisa de um lado B.
Claro, Michael consegue mascarar bem os problemas que tem: simplicidade narrativa, a falta de ousadia de tocar em certos assuntos e tópicos mais espinhosos da vida do cantor e de ir a fundo em mostrar como boa parte desses problemas afetaram não só a vida pessoal do cantor como também carreira meteórica e que o transformou em um dos maiores nomes da música de todos os tempos.
O longa foca em querer celebrar a figura pública que ele foi, muito mais do que querer contar sua vida e se aprofundar nele como pessoa. O Michael Jackson que é mostrado aqui é o Michael Jackson que ele sempre mostrou para o público, e meio que muita coisa fica apenas sugerida pelo filme.
O roteiro de John Logan se contenta em mostrar um garoto (Juliano Valdi muito bem na versão jovem) vindo de uma família gigante, com um pai abusivo (um Colman Domingo que chama atenção) e sua uma incapacidade (não só sua, mas também daqueles ao seu redor) de lidar com a fama e o sucesso monstruoso que fez numa época antes da internet e da exposição nas redes sociais.
Os conflitos aqui em Michael vêm de questões com o pai, que soam muito simples e que não fazem uma captura profunda da vida pessoal do cantor. Logan cria poucos momentos e passagens em que você descobre mais sobre o cantor. E isso impacta um pouco a forma como o longa se desenvolve; afinal, sobra pouco para vermos, mesmo com o filme tendo mais de 2 horas, mais sobre o personagem que o filme quer contar. Meio que tudo soa muito apressado para ser apresentado, contado, e tudo mais.
Os problemas estruturais que Michael tem deixam a impressão de que essa história foi aparada, vetada e calculada para tirar toda a lembrança de um Michael Jackson apresentado no documentário Leaving Neverland (2019). Já que o que temos aqui é um recorte, como falamos, celebratório, sim, do início da carreira do cantor até o momento do seu maior auge. Se, um dia, vamos ver uma parte 2 com os acontecimentos da vida do cantor após os anos 90, quando Michael Jackson passava mais tempo nas manchetes não por conta das músicas, mas por conta das polêmicas em que se envolvia é difícil saber. Afinal, Michael se esquiva de mostrar a figura completa que o cantor foi.
E a decisão de trabalhar a narrativa no estilo coming of age é, de certa forma, interessante e uma saída astuta para o longa, que foca realmente nos momentos mais marcantes da carreira do cantor, com os principais singles que o colocaram no estrelato. Michael tem mais cenas, momentos dramáticos e narrativos que Bohemian Rhapsody (2019 e também do mesmo produtor aqui), mas também é menos performático e menos com cara de clipe do que foi a cinebiografia de Whitney Houston, por exemplo.
Mas, com problemas aqui e ali, uma coisa é certa: Jaafar Jackson entrega uma atuação extremamente carismática em Michael, seja nas cenas dramáticas quanto nos momentos musicais. Em diversos momentos, por conta das decisões de Antoine Fuqua na direção, é impressionante o quão conseguiram fazer o ator novato ficar a cara do tio. E, como o cantor teve diversos semblantes ao longo de sua vida, seja por conta da doença de pele, das decisões estéticas ou ainda do acidente envolvendo um incêndio durante as gravações de um comercial, Jaafar consegue se camuflar em diversos desses momentos, e é como se realmente estivéssemos vendo o próprio Michael Jackson em tela.
É assombrosa a semelhança principalmente nos momentos musicais e quando a câmera está um pouco afastada do centro da tela. Fuqua acerta em muito nos enquadramentos do filme e principalmente de Jaafar em diversos dos momentos mais conhecidos da carreira de Michael Jackson.
As recriações desses diversos momentos, shows e apresentações elevam Michael, que tenta dançar para espantar todos os problemas que tem. Uhu! É impossível não passar o filme batendo o pé ou cantarolando (por favor, não atrapalhe a experiência do colega nos cinemas) quando as principais músicas da coletânea de sucessos do cantor tocam e são mostradas em tela . Dos sucessos do Jackson 5 aos hits como “Billie Jean”, “Beat It” e “Thriller” que, particularmente é o ponto máximo do filme, onde temos uma recriação incrível do icônico videoclipe, até “Bad”, do álbum de mesmo nome, que meio que conclui essa fase que Michael conta da carreira do cantor.
E não é na aparência que Jaafar acerta: é na voz, nos trejeitos e no comportamento infantilizado, em que vemos o personagem ir ganhando uma certa confiança na medida em que a narrativa se desenvolve. E basicamente todo o elenco está bem, de Domingo, que se esconde numa prótese facial para viver Joseph Jackson, Nia Long como a mãe Katherine, KeiLyn Durrel Jones como o segurança particular e confidente Bill Bray e até mesmo também Miles Teller como o empresário John Branca.
Domingo consegue imprimir uma certa autoridade e imprevisibilidade para Joseph, onde você nunca sabe o que o personagem vai fazer, falar ou como vai agir. É um trabalho interessante de acompanhar, mesmo que não seja o melhor do ator, principalmente quando temos o contraposto da figura mais serena de Michael que Jaafar cria. O mesmo vale para Jones que faz a função de “fada madrinha”do jovem, na medida que vemos o personagem proteger o cantor ao longo dos anos. Mas sinto também que todos ficam diluídos na figura mística e grandiosa que é Michael Jackson e, no final, o que importa aqui é mais o aspecto do espetáculo que o filme entrega mais do que a dramatização dos problemas e conflitos que a vida de Michael Jackson, como humano, e não como artista, passou.
Afinal, esse é o cerne desses projetos biográficos, ou projetos que contam histórias de pessoas que viveram: a necessidade de vermos essas figuras como pessoas e o que se passava nos bastidores, e aqui, quando a luva era tirada, as roupas brilhantes eram deixadas de lado, e Michael Jackson era apenas Michael.
Claro, Michael tem isso, mas em pequenas doses, em pequenas passagens, onde aqui o foco é o grandioso, as pequenas excentricidades, os figurinos marcantes e as apresentações que marcaram o mundo da música e da cultura pop como ninguém. No final, Michael poderia ser mais do que apenas tentar representar a figura que ele foi, onde fica claro que precisamos desesperadamente de uma parte 2, que é brevemente apresentada no final.
Michael chega nos cinemas nacionais em 23 de abril. Sessões antecipadas acontecem em cinemas selecionados a partir de 21 de abril.
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