Share

Mostra SP | Jay Kelly | Crítica: George Clooney no ápice como ator em declínio

Jay Kelly(2025) nada mais é que mais um olhar sobre Hollywood e um que funciona quase como um grande spin-off da série O Estúdio. Mesmo que não seja, as comparações são inevitáveis. Se formos olhar 2025 como um todo, é interessante notar que pelo menos dois projetos sobre Hollywood e a vida de pessoas que formam, trabalham e fazem parte dessa indústria, estrearam nos últimos meses. E por mais que sejam elogiadas por pessoas da mesma, talvez, não devem se conectar muito bem com o público geral.

Photo by Peter Mountain/Netflix/Peter Mountain/Netflix – © 2025 Netflix, Inc.
Publicidade

O ator, produtor e roteirista Seth Rogen fez isso com a série de comédia vencedora do Emmy e o diretor e roteirista Noah Baumbach faz isso com o longa que teve uma recepção relativamente morna quando estreou em Veneza e ficou as sombras do trio de longas que a Netflix lançou no festival de cinema italiano alguns meses atrás e que ainda não materializou na temporada de premiações. 

Mas não se engane, Jay Kelly é um passeio divertido, ao mesmo tempo uma visita guiada quase que melancólica, pelos bastidores de Hollywood contada de uma forma extremamente caprichada e liderada por um excelente George Clooney que está no seu ápice ao contar a história desse ator em declínio.

Aqui, Clooney é Jay Kelly um astro de cinema lendário, um dos poucos grandes em Hollywood (ou pelo menos na Hollywood ficcional que Baumbach cria) e passa por uma crise de identidade. Depois de diversos papéis, longas com diversos diretores, prêmios e tudo mais, Kelly começa a se questionar quem é o verdadeiro Jay Kelly por trás da figura Jay Kelly que foi lapidada com perfeição ao longo dos anos e de sua carreira.

E uma figura que se vê sozinho no mundo. Mesmo cercado de diversos funcionários, fãs e pessoas que o admiram. Mas será que conhecem o verdadeiro Jay Kelly? E não só esses questionamentos começam a pipocar na mente de Kelly, que começa também a ficar curioso sobre o poder das possibilidades e o caminho não tomado quando vê uma das filhas (Grace Edwards) partir em viagem pela Europa antes de deixar a casa para faculdade e isso só contribui para aquela pulguinha atrás da orelha que o tem feito revisitar suas escolhas de vida.

Afinal, Kelly gostaria de passar mais tempo com Daisy (Edwards), participar da vida da garota para não repetir o que fez com sua outra filha, agora mais velha e professora Jessica (Riley Keough), com quem ele tem um relacionamento distante e frio. É a busca de Kelly de compensar os anos perdidos que ele gastou em sets, press tour, ensaios e tudo mais. Mas valeu a pena né?

Assim, para o desespero do seu agente Ron (Adam Sandler) e da sua publicista Liz (Laura Dern), Kelly embarca para a Europa para se encontrar com a filha. E por se encontrar queremos dizer rastrear o cartão de crédito da amiga dela e ver os locais por onde eles passam na França. No meio dessa jornada de “auto-descoberta” tardia, Baumbach faz o que faz melhor. Entrega discussões incríveis, diálogos primorosos e realmente nos faz cair de cabeça na vida desses personagens, dos seus problemas, das suas angústias e desejos. 

Jay Kelly é um clássico filme de Noah Baumbach sobre um clássico (para não dizer antigo) ator em uma nova, e sempre em mudança, Hollywood. E a forma como vemos a espiada por trás da cortina na indústria pelas discussões que Baumbach cria para os personagens e o que as atitudes de Kelly significam não só para ele, mas para os profissionais por trás da criação desses grandes nomes na medida que um dos maiores astros de cinema do mundo resolve embarcar em um trem comum da França para a Itália, talvez, seja um dos retratos mais interessantes da indústria dos últimos anos, contada no cinema. 

Afinal, ter a presença de Clooney como Kelly é muito boa de se acompanhar, mas também fica claro como Baumbach coloca o humor para mostrar o quão surreal são os egos de artistas, como é difícil trabalhar com eles, mesmo que de certa forma Ron se considere amigo de Jay Kelly. Mas que o astro o vê assim? “Você é meu amigo, mas leva 15% do que eu ganho.” Assim, além de navegar pela vida de Kelly, o filme mostra também como funciona as relações do ator em sua vida pessoal e profissional e como elas estão intrinsecamente conectadas.

Photo by Peter Mountain/Netflix/Peter Mountain/Netflix – © 2025 Netflix, Inc.

Kelly está no seu momento “de crise”, mas cabe a Ron, Liz, e boa parte do time Jay Kelly, lidar com as imprevisibilidades do ator nessa sua jornada, se imporem contra as vontades do astro e as situações caóticas que eles precisam arrumar depois que o próprio Kelly as cria. 

Seja quando ele sai correndo de um trem atrás de um bandido que rouba a bolsa de uma velinha, ou quando eles precisam incluir uma premiação de um festival de cinema na rota para justificar a ida do astro para a Itália, ou até mesmo, como encobrir a troca de socos num estacionamento qualquer que Kelly teve com um antigo amigo, Timothy (Billy Crudup, ótimo) que o culpa por ter roubado um papel no início da carreira dos dois.

Baumbach sempre parece ser um roteirista (e aqui co-roteirista com  Emily Mortimer) melhor do que um diretor, mas Jay Kelly é gravado e filmado com um certo tom de cinema antigo em que a câmera serve apenas como se fosse uma mosquinha parada para nós os espectadores podermos ver e estar nos cômodos onde as coisas acontecem.

Principalmente quando vemos Kelly gravar, com um cachorro, as cenas finais de um grande projeto. Já que quando Kelly embarca em uma das suas pirações ao longo da memória dá para notar que são mais um devaneio estético de Baumbach do que qualquer outra coisa. 

No final, Jay Kelly parece querer mostrar, satirizar e debater a própria indústria para que vem, mas faz isso com humor extremamente refinado e com uma atuação extremamente carismática de Clooney. Uma grata surpresa e que merecia mais reconhecimento na temporada. Torcendo bastante. 

Nota:

Filme visto no encerramento da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em Outubro.

Jay Kelly chega em cinemas nacionais selecionados em 20 de novembro e depois na Netflix em 05 de dezembro.

Publicidade

Publicidade
Publicidade

Publicidade
error:Vamos com calma no copiar e colar!
Publicidade
Publicidade