Mostra SP | Frankenstein | Crítica: Um balé gótico impecável

“Está vivo!” Talvez, essa frase, seja o que mais representa o quão vibrante é a experiência de se assistir Frankenstein numa telona. Já que é a forma que você escolhe assistir esse longa que faz toda a diferença de aproveitar e curtir essa experiência que nos é entregue aqui.

Já que entre os debates morais que o diretor vencedor do Oscar Guilhermo del Toro apresenta nas figuras do cientista Victor Frankenstein, um excelente Oscar Issac, e da criatura, o queridinho da internet Jacob Elordi, a única certeza que fica é que não ver o filme nos cinemas é o maior crime possível que você, caro leitor, possa fazer.

Foto por Courtesy of Netflix – © Netflix
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Afinal, o que Del Toro entrega aqui é um balé gótico impecável de se assistir em um trabalho visual impressionante que é apoiado, e elevado, pelas atuações de Issac e Elordi, que estão muito bem. A figura do transtornado médico, cientista com complexo de Deus e do imponente, mesmo que frágil, monstro são apresentados aqui, cercados também de figurinos impecáveis, onde Del Toro mais uma vez acerta no tom e na forma de contar com novos olhos esse conto sobre quem é o monstro e quem é a figura humana nessa releitura da obra clássica de Mary Shelley.

Há anos a história de Frankenstein tem sido contada, mas pelas mãos de Del Toro ganha uma nova e requintada roupagem. Já que em Frankenstein tudo é bonito, tudo chama atenção, e é quase como se estivéssemos vendo uma grande e majestosa peça de teatro acontecer na nossa frente.

Do uso de cores primárias, como o vermelho e o verde, que se contrastam com as cores escuras e com uma trilha sonora certeira (e que estava no maior volume possível na sessão que eu estava na Mostra de SP), Del Toro consegue criar cenários tão imersivos que ajudam a nos fazer cair de cabeça nessa história.

E narrativamente falando, Frankenstein segue a estrutura de uma peça mesmo. A história contada em capítulos, com um prelúdio e depois as partes de Victor e da Criatura, respectivamente, segue a estrutura de uma peça, sem dúvidas. Afinal, a história já abre com o cientista fugindo da criatura em pleno inverno, onde uma nevasca toma conta de um lugar nos confins do mundo, e estamos em um navio cheio de marinheiros que salvam um debilitado, fraco e barbudo, Victor e que se indagam de quem, ou que, esse homem foge. 

E assim, como em Wicked (a maior competição do filme na temporada de premiações nas categorias técnicas), Victor resolve contar para o Capitão (Lars Mikkelsen) os como, onde, e por quês, de seu passado que está atrelado junto com o da criatura alta e coberta de peles que a presença no navio é uma ameaça iminente.

A forma como Del Toro sai do gélido navio para anos no passado, onde vamos para o monstruoso casarão que a família Frankenstein vive e somos apresentados para um jovem Victor (Christian Convery), seu irmão, pai (Charles Dance) e mãe é realmente um grande senta aí que “vamos conhecer essa história a fundo mesmo”.

E para isso, nem Del Toro, nem a produção do filme, poupa esforços para deslumbrar o quão imponente é a mansão onde Victor foi criado. O tratamento visual que o filme recebe, aliado com os pomposos figurinos, e a iconografia que é apresentada é de fazer impressionar e querer pausar o filme para saborear todos os cantos da tela (em casa, na Netflix, poderei fazer isso!)

E na medida que vemos de onde Victor surgiu, ao longo da sua história, vemos seus complexos sentimentos pelo pai, pela mãe, e pelo irmão, sua arrogância e egocentrismo dominarem sua personalidade.  Principalmente quando seu daddy issues ataca e ele se vê na pira de dominar as artes médicas para ser um profissional melhor que seu pai.

E é quando Issac, que interpreta Victor na fase adulta, entra em cena que Frankenstein ganha vida. Um excelente Issac entrega uma performance eletrificante, carismática e cheia de energia enquanto tenta apresentar suas ideias para o conselho de médicos: ele quer driblar a morte e trazer de volta um cérebro de um recém falecido. E se formos pensar, essa passagem acaba por ser um paralelo com o próprio filme em si, já que a apresentação de Victor é pomposa, é bem apresentada, mas não faz a ala mais conservadora cair de amores.

E é isso que de certa forma representa a experiência de ver Frankenstein. Já que Del Toro consegue envelopar Frankenstein da maneira mais bonita possível, mas nós sabemos aqui que não temos um filme perfeito.

Foto por Courtesy of Netflix – © Netflix

Afinal, todo o arco que leva Issac a conseguir aperfeiçoar seus estudos, conseguir ser bancado por um benfeitor, um excelente Christopher Waltz, retomar o contrato com o irmão (Felix Kammerer) e conhecer a noiva dele (Mia Goth) é o que dá o gás necessário para essa primeira parte de Frankenstein se desenrolar. E dessa introdução, até o momento da criação da criatura em si, para tudo que vemos na decepção de Victor (ou no ciúmes) acabam por serem as melhores passagens do filme.

E Frankenstein só se beneficia disso. Já que Issac comanda uma presença em tela incrível, Del Toro ainda segue por nos impressionar visualmente, e a chegada da criatura é feita com um trabalho corporal de um Elordi que surpreende. Mas aí temos a parte 2, e a chegada da parte que conta a história por outra perspetiva, que é a visão da Criatura. E o filme sofre com essa barriga e mudança na narrativa.

Claro, o trabalho de efeitos práticos com a criatura e toda a parte depois que ele consegue fugir do castelo são interessantes, e toda a história dele com o ancião (David Bradley) são muito bonitas, mas leva-se um tempo para voltarmos para onde estávamos em termo de ritmo e empolgação com o que iria acontecer com o homem e a criatura nas cenas do presente ainda no navio gelado. 

Mas quando descobrimos mais sobre a criatura e seu bom coração, e como ele foi jogado nesse mundo cruel sem muitas chances por Victor é que Frankenstein termina de mostrar para que veio, onde Del Toro mostra, mais uma vez, que o homem em si pode ser uma ameaça muito mais horripilante do que uma criatura estranha e diferente.

E depois de Labirinto do Fauno, A Colina Escarlate, A Forma da Água e Pinóquio, fica claro que Del Toro ao conseguir colocar as mãos no monstro original, apresentado há anos na história de Mary Shelley, trataria a história da melhor forma possível. E tecnicamente entrega um filmaço. Para uma história que foi contada em diversas produções, ao longo dos anos, o diretor abraça quase o formato de um novelão e entrega, talvez, a mais bonita e grandiosa adaptação de Frankenstein que já tivemos. 


No final, ao focar no bonito, no triste, no belo e no trágico, Del Toro coloca um pouco da sua personalidade e do seu olhar único para essa história e que definitivamente faz de Frankenstein um dos mais caprichados do ano, num longa que vale a pena ser visto e apreciado na maior tela possível.

Longa visto na 49ª Mostra Internacional de São Paulo em Outubro.

Frankenstein está em cartaz em cinemas selecionados e chega na Netflix em 7 de novembro na Netflix.

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Miguel Morales

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