Mostra SP | Frankenstein | Crítica: Um balé gótico impecável

“Está vivo!” Talvez, essa frase, seja o que mais representa o quão vibrante é a experiência de se assistir Frankenstein numa telona. Já que é a forma que você escolhe assistir esse longa que faz toda a diferença de aproveitar e curtir essa experiência que nos é entregue aqui.
Já que entre os debates morais que o diretor vencedor do Oscar Guilhermo del Toro apresenta nas figuras do cientista Victor Frankenstein, um excelente Oscar Issac, e da criatura, o queridinho da internet Jacob Elordi,a única certeza que fica é que não ver o filme nos cinemas é o maior crime possível que você, caro leitor, possa fazer.

Afinal, o que Del Toro entrega aqui é um balé gótico impecável de se assistir em um trabalho visual impressionante que é apoiado, e elevado, pelas atuações de Issac e Elordi, que estão muito bem. A figura do transtornado médico, cientista com complexo de Deus e do imponente, mesmo que frágil, monstro são apresentados aqui, cercados também de figurinos impecáveis, onde Del Toro mais uma vez acerta no tom e na forma de contar com novos olhos esse conto sobre quem é o monstro e quem é a figura humana nessa releitura da obra clássica de Mary Shelley.
Há anos a história de Frankenstein tem sido contada, mas pelas mãos de Del Toro ganha uma nova e requintada roupagem. Já que em Frankenstein tudo é bonito, tudo chama atenção, e é quase como se estivéssemos vendo uma grande e majestosa peça de teatro acontecer na nossa frente.
Do uso de cores primárias, como o vermelho e o verde, que se contrastam com as cores escuras e com uma trilha sonora certeira (e que estava no maior volume possível na sessão que eu estava na Mostra de SP), Del Toro consegue criar cenários tão imersivos que ajudam a nos fazer cair de cabeça nessa história.
E narrativamente falando, Frankenstein segue a estrutura de uma peça mesmo. A história contada em capítulos, com um prelúdio e depois as partes de Victor e da Criatura, respectivamente, segue a estrutura de uma peça, sem dúvidas. Afinal, a história já abre com o cientista fugindo da criatura em pleno inverno, onde uma nevasca toma conta de um lugar nos confins do mundo, e estamos em um navio cheio de marinheiros que salvam um debilitado, fraco e barbudo, Victor e que se indagam de quem, ou que, esse homem foge.
E assim, como em Wicked (a maior competição do filme na temporada de premiações nas categorias técnicas), Victor resolve contar para o Capitão (Lars Mikkelsen) os como, onde, e por quês, de seu passado que está atrelado junto com o da criatura alta e coberta de peles que a presença no navio é uma ameaça iminente.
A forma como Del Toro sai do gélido navio para anos no passado, onde vamos para o monstruoso casarão que a família Frankenstein vive e somos apresentados para um jovem Victor (Christian Convery), seu irmão, pai (Charles Dance) e mãe é realmente um grande senta aí que “vamos conhecer essa história a fundo mesmo”.
E para isso, nem Del Toro, nem a produção do filme, poupa esforços para deslumbrar o quão imponente é a mansão onde Victor foi criado. O tratamento visual que o filme recebe, aliado com os pomposos figurinos, e a iconografia que é apresentada é de fazer impressionar e querer pausar o filme para saborear todos os cantos da tela (em casa, na Netflix, poderei fazer isso!)
E na medida que vemos de onde Victor surgiu, ao longo da sua história, vemos seus complexos sentimentos pelo pai, pela mãe, e pelo irmão, sua arrogância e egocentrismo dominarem sua personalidade. Principalmente quando seu daddy issues ataca e ele se vê na pira de dominar as artes médicas para ser um profissional melhor que seu pai.
E é quando Issac, que interpreta Victor na fase adulta, entra em cena que Frankenstein ganha vida. Um excelente Issac entrega uma performance eletrificante, carismática e cheia de energia enquanto tenta apresentar suas ideias para o conselho de médicos: ele quer driblar a morte e trazer de volta um cérebro de um recém falecido. E se formos pensar, essa passagem acaba por ser um paralelo com o próprio filme em si, já que a apresentação de Victor é pomposa, é bem apresentada, mas não faz a ala mais conservadora cair de amores.
E é isso que de certa forma representa a experiência de ver Frankenstein. Já que Del Toro consegue envelopar Frankenstein da maneira mais bonita possível, mas nós sabemos aqui que não temos um filme perfeito.

Afinal, todo o arco que leva Issac a conseguir aperfeiçoar seus estudos, conseguir ser bancado por um benfeitor, um excelente Christopher Waltz, retomar o contrato com o irmão (Felix Kammerer) e conhecer a noiva dele (Mia Goth)é o que dá o gás necessário para essa primeira parte de Frankenstein se desenrolar. E dessa introdução, até o momento da criação da criatura em si, para tudo que vemos na decepção de Victor (ou no ciúmes) acabam por serem as melhores passagens do filme.
E Frankenstein só se beneficia disso. Já que Issac comanda uma presença em tela incrível, Del Toro ainda segue por nos impressionar visualmente, e a chegada da criatura é feita com um trabalho corporal de um Elordi que surpreende. Mas aí temos a parte 2, e a chegada da parte que conta a história por outra perspetiva, que é a visão da Criatura. E o filme sofre com essa barriga e mudança na narrativa.
Claro, o trabalho de efeitos práticos com a criatura e toda a parte depois que ele consegue fugir do castelo são interessantes, e toda a história dele com o ancião (David Bradley) são muito bonitas, mas leva-se um tempo para voltarmos para onde estávamos em termo de ritmo e empolgação com o que iria acontecer com o homem e a criatura nas cenas do presente ainda no navio gelado.
Mas quando descobrimos mais sobre a criatura e seu bom coração, e como ele foi jogado nesse mundo cruel sem muitas chances por Victor é que Frankenstein termina de mostrar para que veio, onde Del Toro mostra, mais uma vez, que o homem em si pode ser uma ameaça muito mais horripilante do que uma criatura estranha e diferente.
E depois de Labirinto do Fauno, A Colina Escarlate, A Forma da Água e Pinóquio, fica claro que Del Toro ao conseguir colocar as mãos no monstro original, apresentado há anos na história de Mary Shelley, trataria a história da melhor forma possível. E tecnicamente entrega um filmaço. Para uma história que foi contada em diversas produções, ao longo dos anos, o diretor abraça quase o formato de um novelão e entrega, talvez, a mais bonita e grandiosa adaptação de Frankenstein que já tivemos.
No final, ao focar no bonito, no triste, no belo e no trágico, Del Toro coloca um pouco da sua personalidade e do seu olhar único para essa história e que definitivamente faz de Frankenstein um dos mais caprichados do ano, num longa que vale a pena ser visto e apreciado na maior tela possível.
Longa visto na 49ª Mostra Internacional de São Paulo em Outubro.
Frankenstein está em cartaz em cinemas selecionados e chega na Netflix em 7 de novembro na Netflix.











