Festival do Rio | Vidas Passadas | Resenha

 Seleção oficial do Festival de Berlim e exibido no Festival de Sundance 2023. Vidas Passadas (Past Lives) tem roteiro e direção de Celine Song.

Sinopse: Nora e Hae Sung, dois amigos de infância profundamente conectados, se separam depois que a família de Nora decide sair da Coreia do Sul. Vinte anos depois, eles se reencontram em Nova York para uma semana fatídica em que confrontam noções de destino, amor e as escolhas de suas vidas, neste comovente romance moderno. 

Foto: California Filmes
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O que achamos: Muito bom.

A diretora, dramaturga, e roteirista Celine Song faz sua estreia nos cinemas com Vidas Passadas e entrega um poderoso retrato de amizade, companheirismo e relacionamentos muito interessante de se assistir. Com debates contemplativos sobre essa história de dois amigos de infância que se encontram anos depois que Nora (Greta Lee) deixou a Coreia do Sul para ir morar com os pais no Ocidente quando criança e deixou, não só o país que morava, mas também o amigo Jung Hae Sung (Teo Yoo) para trás, o longa de debruça em diversas questões refletivas sobre o que podemos esperar desses personagens nessa história encantadora.

Assim, com Vidas Passadas, Song não entrega um filme com respostas fáceis, ou um filme com uma fórmula de um romance tradicional a ser seguida. E sim, um longa que mostra a complexidade dessas relações, as diversas possibilidades que nossas escolhas têm sobre nossas vidas e como, no final, nossas decisões no presente, baseadas em outras decisões do passado, impactam nosso futuro.

Em um dos momentos do filme, o marido de Nora, o americano Arthur (John Magaro) comenta ser “o americano branco malvado que está para atrapalhar os dois amigos de infância na busca de ficarem juntos”. E de forma bem humorada, fica claro que o personagem sabe, e que o texto de Song brilhantemente pontua, que essa história não é sobre isso, e sim, sobre muito mais. Vidas Passadas é sobre os caminhos não percorridos, as decisões não tomadas por diversos N motivos e como esses personagens escolheram se reconectar mesmo com os diversos percalços que a vida impôs para essa amizade por outros diversos X motivos.

E toda a questão que o filme apresenta sobre In-Yun, uma ideia, conceito ou provérbio sul-coreano que diz que todas as pessoas estão conectadas nessa vida por já terem tido algum tipo de conexão em vidas passadas (e daí o título do longa) se mescla por demais com a trama do filme, com esses personagens, e com o texto tão bem escrito de Song sobre esse tema. Nora até brinca que isso é apenas uma cantada que os sul-coreanos usam, e a forma como o longa vai de 8 para 80, é louvável e um dos principais destaques de Vidas Passadas, sem dúvidas.

Bem humorado para quebrar a seriedade dessas conversas, Song coloca diversos momentos mais engraçadinhos como esse citado acima, na medida que conhecemos mais da vida de Nora e os caminhos que a levaram a estar onde está hoje.

Dos sonhos de quando criança em ganhar um prêmio Nobel, e que quando adulta mudaram para ganhar um prêmio Pulitzer e depois para um Prêmio Tony (ela trabalha com peças de teatro), tudo isso serve para mostrar como nossas visões de mundo (aqui representadas pelas de Nora), e o cenário social que nos cerca, e as oportunidades que temos mudam de acordo com a nossa trajetória de vida.

O longa trabalha para dar o espectador uma visão panorâmica de todas as variáveis dessa equação para mostrar para o espectador que nem tudo é preto no branco nessa história focada na personagem. De Nora encontrar o perfil de Jung on-line, para as diversas trocas de mensagem e chamadas de Skype, para as barreiras que a distância entre eles impedem essa reunião depois de mais de 20 anos, e depois, vemos a personagem ir para um retiro de escritores onde ela conhece o marido, e depois mais 12 anos depois com ela já nessa relação por um bom tempo, se vê de surpresa, quando Jung e avisa que vai passar as férias nos EUA, e eles enfim se reencontram depois de anos.

Assim, o longa coloca Nora para refletir como seria sua vida se tivesse ficado na Corea e tudo mais. É como a personagem comenta em um determinado momento, nos EUA ela parece nunca ser americana o suficiente, e com Jung ela nunca parece ser coreana suficiente, e isso é uma das reflexões mais poderosas que Song, junto com o trabalho fenomenal de Lee, nos entrega em Vidas Passadas.

Tudo isso, o ar teatral sem soar maçante, contribui para deixar Vidas Passadas um filme extremamente emocionante e tocante. O trio principal está muito bem, principalmente nas cenas que estão todos juntos, desde dos momentos iniciais que abrem o longa, no bar, até mesmo para o encontro dos personagens no apartamento do casal. Mas como falamos Lee é força que move esse longa, e a atriz, depois de participar de diversas produções como coadjuvante, finalmente assume o protagonismo merecido em Vidas Passadas.

No final, o que temos é um filme sensível, onde Vidas Passadas faz um retrato íntimo de uma história e de um tema universal independente de onde vem cada um de nós. Sem dúvidas, um dos filmes mais bonitos, interessantes e reflexivos do ano.

Nota:

Chega no circuito comercial em Janeiro de 2024.

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Miguel Morales

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