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Festival do Rio | Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria | Crítica: Rose Byrne perfeita!


Mais conhecida por seus papéis em comédia, a atriz Rose Byrne realmente é o grande chamariz para o Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. E por mais que tenha um título curioso e longo, e o filme meio que acabe por ter, e entregar, um de estrutura simples, é uma que não deixa de ser bastante eficaz no que se propõe.

Aqui, uma excelente Byrne interpreta Linda, uma mulher, mãe, terapeuta que tenta conciliar tudo e todos e que vê essa tarefa, ficar cada dia mais difícil. E a diretora (e também roteirista) Mary Bronstein sabe muito bem contar essa história ao focar câmera quase 100% no rosto da atriz. É como se estivéssemos ali com Linda, vendo seu desespero, suas angústias, e, assim, como ela, não termos para onde escapar. Já que estamos ali, presos, com ela, nessa jornada.

Ela na tela, e nós na cadeira do cinema. E que jornada doida, incomoda, mas visualmente bonita de se acompanhar.

O sentimento de incômodo é sentido o filme todo na medida que as coisas que acontecem com Linda e as pessoas ao seu redor só vão por escalonar e ficar cada vez mais complexos: É a doença da filha, é ter que lidar com a médica da filha (Bronstein em uma participação especial), é o rombo que surge no teto da casa dela e que abre um buraco gigantesco no lugar, são os pacientes que ela tem, a relação com o seu próprio terapeuta (Conan O’Brien), a relação com o cara que trabalha no hotel (A$AP Rocky, uma grande surpresa) em que ela se hospeda com a filha depois que sua casa fica inabitável, é com o marido (Christian Slater em grande parte somente uma voz distante no telefone) e tudo mais.

Foto: A24/Reprodução IMDB
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A forma como Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria se comporta como uma grande panela de pressão prestes a explodir e que tem Linda no centro dela é sentida no filme e apenas deixa essa história se desenrolar de uma forma extremamente deliciosa de se acompanhar, e claro, caótica. 

Afinal, a presença da filha (Delaney Quinn) é uma que se mostra sempre presente em cena, mas nunca é, propriamente, vista ao longo do filme. A personagem sempre está off câmera, onde ouvimos suas reclamações, birras e a vozinha irritante a todo momento. Coisa, que nós faz, o público, ficarmos do lado de Linda e nos obriga a simpatizar por ela e por tudo que ela está passando. De certa forma a filha é a grande vilã do filme, por mais que seja uma garotinha e uma doente. 

E essa complexidade narrativa, essa dualidade narrativa vista em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria só é capaz de ser entregue por conta de Byrne que lidera esse elenco com maestria.

Afinal, sim, o tom mais cômico que ela sempre teve em diversos outros projetos como Missão Madrinha de Casamento até mesmo para as recentes séries Physical e Amor Platônico é utilizado aqui por ela e por Bronstein em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria.

Já que boa parte das situações que Linda passa chegam até a serem engraçadas de certa forma, mas mais pelo fato que são uma mais surreal que a outra e apenas somam uma atrás da outra num espiral de caos e confusão. 

E Byrne não faz de Linda uma vítima, e sim, talvez, vítima da situação e toda a situação que ela vive e passa. Afinal, as coisas se complicam ainda mais quando uma das suas pacientes some (Danielle Macdonald) e deixa o bebê recém nascido com ela, o tratamento da filha que consiste em ganhar peso para continuar num programa de recuperação que não dá frutos, e ela vive uma eterna rixa com um funcionário (Mark Stolzenberg) da escola da criança que cuida da fila dos carros durante a entrada dos alunos.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é uma história sobre os percalços da maternidade ao mesmo tempo que mostra essa mulher tentando ser tudo que a sociedade e as pessoas exigem dela. Mas quem pensa no que a Linda precisa? 

Pelo visto, nem a própria Linda que chega a ser engolida pelo espiral de culpa e cansaço. Igual o buraco do teto ou o buraco do tubo de alimentação da filha. E é aí que Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria abraça um lado mais lúdico, fantasioso, e a trama parte para uma coisa mais doida. 

No final, a trajetória da Linda de Byrne toma um caminho imprevisível e maluco e que mostra que, às vezes, só precisamos de um tempo para parar, respirar fundo, antes de voltar para o caos do cotidiano. Tem horas que isso é mais assustador do que qualquer outra coisa e realmente dá vontade de chutar um.

Filme visto no Festival do Rio em Outubro. 

Avaliação: 4 de 5.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria tem distribuição da SYNAPSE DISTRIBUTION no Brasil sem previsão de estreia no momento no país.


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Miguel Morales

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