Festival do Rio | O Agente Secreto | Crítica: Um filme que tem o molho

O hype em cima de O Agente Secreto tem sido fomentado, criado e trabalhado tem mais de 6 meses já e foi impulsionado depois da vitória do Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar no começo do ano, com Ainda Estou Aqui.
E burburinho em torno do projeto ganhou muito mais força depois que o novo filme do diretor Kleber Mendonça Filhofoi selecionado para a estar na competição da edição 2025 do Festival de Cannes, logo depois foi ovacionado, e ainda por cima, se tornou o mais premiado por lá com Melhor Direção e Melhor Ator para Wagner Moura.
E depois de passar por diversos festivais nacionais, O Agente Secretochegou ao Festival do Rio com sessões disputadas. Fica claro que o filme fala por si próprio, não é só uma coisa “vamos manter essa festa de pé” não, onde a conclusão que fica é que: sim, O Agente Secreto é tudo isso mesmo e estamos certos de panfletar sempre que pudermos. Já que O Agente Secreto é, sim, um filme que tem o molho.

Totalmente ancorado pelo carisma contagiante de Wagner Moura, O Agente Secreto é um quebra-cabeça que esbanja uma brasilidade enorme ao contar essa história no meio de um Brasil em plena ditadura militar e que expõe a forma como alguns poucos controlavam a política e se metiam em diversos assuntos que travaram e atrasaram o país durante os anos. E que claro, afetou a vida de milhares de pessoas nesse período tenso da nossa História.
E a forma como Mendonça Filho constrói a narrativa ao focar nesse personagem extremamente complexo interpretado por Moura e, aos poucos, amplia o contexto social e político que ele está inserido, é uma que faz, com que nós, o espectador ali sentado na cadeira do cinema, queira acompanhar essa história que é contada e apresentada com um visual incrível de ser ver na telona.
O Agente Secreto é realmente um olhar para o passado. Um passado de certa forma roubado. E a importância desse história ser contada fica claro principalmente quando Mendonça Filho coloca todas as cartas na mesa. Por exemplo, o longa tem uma cena, lá para a metade, onde todos os personagens estão reunidos e descobrimos mais sobre todos eles que é simplesmente sensacional de se assistir. E não quero dar muito spoiler, pois ir descobrindo com o filme tudo que rolava foi uma experiência e tanto e uma das melhores que tive em 2025.
É como se Mendonça Filho tivesse uma lupa focada em uma única coisa (o personagem de Moura) e fosse aumentando o raio do foco, aos poucos, onde depois de um tempo é que conseguimos ver um panorama geral dessa história e desses personagens e juntarmos tudo que foi apresentado. Ao longo de sua duração O Agente Secretomeio que abre portinhas e portinhas para nos levar mais a fundo nessa história na medida que vamos por conhecer mais o passado desse protagonista, o que aconteceu com ele, e por que ele está, onde está, no momento que o filme começa.
Já que quando começa, O Agente Secreto nos apresenta e introduz para a figura de um homem aparentemente normal, e suado, chamado Marcelo (Moura) que chega, bem no final do feriado de carnaval, com seu carro amarelo, em um posto de gasolina de beira de estrada em que o frentista que tá lá tem problemas de se encontrar com a polícia por conta de um crime que aconteceu no estabelecimento alguns dias antes.
Marcelo só está de passagem pelo local, a caminho de chegar na cidade, mas é parado por policiais que finalmente dão o ar da graça, apenas para esquecer o corpo estirado no chão, e revistam o veículo do visitando. E, claro, que depois ainda pedem uma velha e boa ajudinha. O que se desenrola depois disso é apenas mais uma peça para montarmos sobre esse personagem para sabermos mais sobre Marcelo.

Dividido por capítulos, O Agente Secreto é um surto atrás do outro que esbanja um caleidoscópio de gêneros. Tem suspense com um tom cômico e nos leva a acompanhar a trajetória desse personagem nessa nova cidade, quando ele chega em uma vila de moradores em que é recepcionado pela anfitriã do lugar, uma excêntrica e desbocada senhora fumante (Tânia Maria, uma força da natureza).
No meio de conversas ambíguas e personagens que vão e passam, descobrimos que Marcelo vai começar também um novo trabalho em uma instituição governamental. Em O Agente Secreto tudo parece estar sendo contado e mostrado de uma forma que existe mais coisa por trás disso, quase como o Marcelo de Moura vivesse um papel de um agente duplo mesmo. E Moura é brilhante em transmitir isso. Em uma das cenas, uma colega de trabalho, uma fofoqueira com um óculos gigante, quer saber mais de sua vida, se ele é casado e tudo mais, e Marcelo sai dessa saia justa muito bem, sem revelar muito sobre si.
Mas, Marcelo FOI casado (Alice Carvalho numa das melhores cenas do filme) e tem um filho chamado Fernando, mas só vamos descobrir sobre eles mais lá para frente já que Mendonça Filho e seu roteiro seguram as informações o quanto pode, até revelar tudo de uma vez.
E quando a respostas chegam, o filme faz um click, e você entende o que tá rolando é um sentimento muito impactante. Já que a forma como o roteiro de Mendonça Filho vai nos dar informações e pequenas pistas sobre o personagem é um trabalho impecável de construção de narrativa. É como se O Agente Secreto fosse uma panela de pressão prestes a explodir, onde Marcelo está no centro dessa história.
E na medida que essa história ganha forma, que todas as peças são colocadas na mesa e vemos os comos, porques e quando sendo apresentados e a trama segue no zig-zag narrativo de ir para passado, voltar para o presente, e depois avançar para futuro, é que a tapeçaria que Mendonça Filho criou para esses personagens começa a fazer sentido.
Mesmo que O Agente Secreto acabe por ser um pouco auto-explicativo demais nas cenas do futuro e duas repórteres acabam por explicar aquilo que acabamos de ver, o filme tem muito mais acertos do que momentos a desejar. Talvez, seja a minha única reclamação, no meio de tudo de tão interessante que é apresentado aqui.
Seja o folclore local representado pela Perna cabeluda serial killer que sai nas manchetes do jornal e que atacou as ruas de Recife, a homenagem ao cinema (e ao cinema de gênero com Tubarão, o primeiro blockbuster) com o personagem do ator Carlos Francisco como um o projecionista de um cinema de rua de Recife e figura importante na história de Marcelo, ou a presença marcante da personagem da Dona Sebastiana de Tânia Maria, um dos destaques aqui, onde cada frase e diálogo é um primor, e até mesmo o clima de filme de espionagem que o longa abraça na medida que vemos dois capangas (Roney Villela e Gabriel Leone) na cola de Marcelo pelas ruas da cidade.
No final, O Agente Secreto é uma mistura de várias coisas e entrega um filme quente, vibrante, tenso e cômico. E nessa mistura, a importância de saber contar uma história e manter essa história viva na lembrança é um dos pontos mais altos do filme e o que o roteiro quer passar. Se não existe registro, não existe memória, e se não existe memória, somos capazes de deixar o que já aconteceu se repetir.
E aqui, não é segredo nenhum que ao colocarmos cada peça junta uma na outra fica claro o trabalho impecável e primoroso que Mendonça Filho montou aqui com O Agente Secreto num dos melhores e mais estilosos filmes do ano.
Filme visto no Festival do Rio em Outubro de 2025.
O Agente Secreto chega em 06 de novembro nos cinemas nacionais.











