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Festival do Rio | Hamnet | Crítica: Um dos melhores ano. O resto é silêncio.

No magistralmente belo Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, a diretora Chloé Zhao (vencedora do Oscar por Nomadland, de Eternos) coloca no centro do palco, nos holofotes, em uma figura que ficou um pouco as sombras do grande dramaturgo inglês e um dos maiores pensadores da História, William Shakespeare: sua esposa Agnes

E para isso Zhao trabalha com dois dos mais interessantes, e talentosos, atores dessa nova safra de Hollywood para contar essa linda, devastadora, bonita e triste história: Jessie Buckleye Paul Mescal.

Foto: Cortesia do Festival do Rio.
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Os dois estão fenomenais no papel, em duas das atuações mais primorosas do ano. Onde, a presença dos dois, aliado ao cenário rural, e a história que é contada aqui sobre luto e sobre o poder transformador do teatro, e das artes de maneira geral, na jornada através pelo processo de luto faz de Hamnet um dos filmes mais bonitos do ano e que definitivamente, um, que vai te destruir emocionalmente.

Num bom sentido, claro, afinal o que Zhao entrega aqui é nada mais do uma verdadeira experiência catártica de se assistir, se emocionar e realmente sair balançado da sessão. A narrativa da diretora, responsável também pelo roteiro com Maggie O’Farrell (que escreveu o livro em que o filme é baseado) estabelece aqui, é construída de uma forma incrivelmente sedutora para meio que juntos, possamos, embarcar nessa história com esses personagens e acompanhar de perto os diversos momentos que eles vivem.

Zhao convida o espectador a olhar pela cortina e estar ali, por toda a jornada, com eles, desde do momento em que o jovem William (Mescal, muito bem) conhece a jovem Agnes (Buckley, uma força da natureza aqui) no meio da floresta até quando as cenas finais são exibidas e a tela preta surge. Com a natureza como um dos maiores aliados visuais, Zhao nos apresenta para esse amor à primeira vista, digno dos contos de fada, como se fosse um sonho etéreo, rupestre, visto em A Bela Adormecida que não só define quem são esses personagens e como, e por que, eles se apaixonaram um pelo outro no primeiro momento, como também faz uma grande alusão para o conto de Romeu e Julieta, um dos mais conhecidos e celebrados do autor.

Afinal, a jovem Agnes é mal vista pelo povoado que eles vivem por ser filha de uma curandeira, por andar e domar um falcão, onde ela mesmo herdou algumas habilidades como preparação de ervas e outras coisas mais. Já William é desgosto do pai linha dura e voltou para o vilarejo para ensinar Latim para as crianças. Eles não poderiam ficar juntos, por pressão das suas famílias, mas, ficam, diferente dos pombinhos da história que bateram as botas. 

Esse começo de Hamnet serve para posicionar os personagens, apresentar os familiares representados por Emily Watson(Chernobyl, Duna: A Profecia)como a mãe do autor e Joe Alwyn (visto em Tipos de Gentileza e O Brutalista) como o meio-irmão de Agnes, e nos mostrar realmente a vida antes de tudo. É, de certa forma, um romance desses de fanfic e que Zhao brilhantemente costura e apresenta para nós. 

Buckley está magnética em tela, como essa jovem do campo, sem medo, de ser quem é, de espírito livre e opinativa. Bem diferente do que era esperado para a época e num contraste visual e narrativo bem grande em relação às outras personagens femininas do longa. É só ver o figurino, um vestido vermelho, que dá cor e destaca a personagem em tela. Seria Agnes o grande coração desse filme? É o que a cena de abertura nos leva a crer com a personagem deitada no meio da floresta. 

Foto: Cortesia do Festival do Rio.

Já Mescal, mostra o por que é um dos queridinhos de Hollywood no momento, o Sad boy aesthetic tão característico do ator aqui é usado no ápice pelo ator nessa personificação de uma das maiores mentes literárias da história. E claro que Mescal, e o texto de Zhao, conseguem fazer com que ele seja sim uma figura complexa, atormentada, e também arrogante, e fechada. Mas na medida que Agnes e William decidem viver juntos, e a jornada dos dois juntos, segue seu curso, com ela tendo os filhos do casal, e ele em busca de vender suas ideias e transformar em peças teatrais, o longa prepara o terreno para o evento traumático que marcou a jornada do casal: a morte do filho Hamnet.

E assim, na devastadora perda, Agnes e William processam seu luto de maneiras diferentes. E o filme faz questão de pontuar isso e os atores capricharem nas cenas mais dramáticas para venderem essa jornada triste, depois de um evento inimaginável, que os dois vivem e que culmina na peça A Tragédia de Hamlet, considerada por muitos a grande obra-prima do autor. 

E na medida que estamos com William em preparação para a primeira exibição da peça, com ele nos bastidores, ensaiando com os atores e um também excelente Noah Jupe (que você pode reconhecer dos filmes Um Lugar Silencioso, agora mais velho), temos Agnes em fúria por conta do marido ter deixado a família e ido para Londres tocar a produção.

Hamnetgalopa a narrativa para o encontro dos dois e garante os belíssimos 20 minutos finais do longa. Foram os mais devastadores que eu passei numa sala de cinema no ano e que ecoa, e continua a se repetir em minha mente, já alguns dias após eu ter visto o filme. O que Zhao, Mescal e principalmente Buckley fazem aqui, definitivamente será lembrado e estudado no futuro. Além das excelentes atuações, a forma como a direção homenageia diversas outras peças do autor, seja com o clima de romance entre os dois como o já citado Romeu e Julieta, ou até mesmo para Macbeth com as crianças fazendo a alusão para as Três Bruxas, é sensacional.

E assim, ao chegar na pré-estreia, no palco circular, e a peça efetivamente começa, a ficha de Agnes vai por cair e perceber que essa peça É SOBRE eles (aqui, eu faço uma referência para a série Euphoria) e Hamnetganha um ar de “ah, que triste” para “ah, que triste, mas que lindo” gigante. E na medida que os atores entram em peça e o ator principal é a cara do filho dos dois, o sentimento de choro e nó apertado na garganta aparecem quando vemos Agnes no centro do palco vendo a peça do marido e tudo que ele queria dizer e conseguiu apenas da sua própria forma.

No teatral, no espetáculo grandioso, Hamnetnos entrega uma história sobre um casamento, sobre duas pessoas que precisavam lidar com o pós-tragédia que deu fruto para uma outra história dentro dessa história que ecoou por séculos, permaneceu no imaginário popular durante anos, para ser adaptada e contada, aqui, e agora em 2025, por uma das diretoras mais talentosas e promissoras que temos atualmente em Hollywood.

Fica claro, no final, que com Hamnet, estamos diante de um dos melhores filmes dos últimos anos. O resto é silêncio.

Filme visto no Festival do Rio em Outubro de 2025.

Nota:

Hamnet: A Vida Antes de Hamletchega nos cinemas nacionais em Janeiro de 2026.

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