Festival do Rio | A Voz de Hind Rajab | Crítica: O terror da vida real em um dos filmes mais tensos do ano.

A trajetória de A Voz de Hind Rajabnos últimos meses (a seleção em Veneza, o prêmio no Festival, a repercussão com a crítica) só comprova a importância do filme em continuar a mostrar o que tem acontecido em Gaza e na região nos últimos tempos.
Afinal, o assunto que A Voz de Hind Rajabtoca pode não ser novo, mas, talvez, a distância que o Ocidente tem do conflito por lá só deixe o filme ser uma das experiências mais tensas do ano. Afinal, o que separava a jovem palestina Hind Rajab, de 6 anos, do resgate, após o carro em que ela estava ser atingido por uma bomba, era um trajeto de apenas 8 minutos. Mas que demorou a acontecer por conta das dificuldades da região, do sistema, e da política, e tudo mais que são apresentadas ao longo do filme.

E a diretora Kaouther Ben Hania consegue nessa dramatização da sala de emergência da Cruz Vermelha nos mostrar o sentimento de tensão, de angústia, e de aflição que esses voluntários passam ao longo de horas enquanto tentam aprovação do governo local para traçar uma rota segura para os paramédicos irem até o local.
Mas o que mais chama atenção no filme é que na medida que os atores recriam os eventos daquela tarde/noite, os áudios que eles interagem são os áudios verdadeiros que contém a voz da garotinha na linha. Sim, em A Voz de Hind Rajab ouvimos a própria voz da garotinha desesperada no meio do fogo cruzado, embaixo dos escombros, e sozinha apenas com um telefone e os operadores de emergência. E isso fica ainda mais tenso de pensar e refletir quando lembramos que Hind Rajab tinha apenas 6 anos. É um mundo cruel mesmo.
O sentimento de impotência que o operador Omar (Motaz Malhees, ótimo numa atuação visceral) vive é sentido logo de cara no filme, na medida que ele recebe a ligação de emergência, começa a tirar informações da jovem, e descobre que ela está nos escombros do carro com toda sua família morta ao seu redor e uma grande tanque de guerra ainda por perto. Omar quer resolver a situação o mais rápido possível, mas seu chefe Mahdi (Amer Hlehel) diz que eles precisam seguir as regras e os dois travam uma batalha de discussões enquanto tentam manter a jovem na linha.
E assim A Voz de Hind Rajab se torna uma corrida contra o relógio para tentarmos, junto com esses personagens, resolvermos essa situação. E cada ideia, a cada momento dessa situação que para nós soa um pouco fora da realidade, o filme mergulha cabeça no contexto social e político da região, na medida que esse grupo de pessoas precisa colocar seus sentimentos pessoais de lado e atuarem como profissionais. Claro que ao longo do filme isso se torna uma missão cada vez mais difícil.
E a chegada da operadora Rana (Saja Kilani, numa cena devastadora lá para metade do filme) e da chefe do departamento Nisreen (Clara Khoury) mostram um pouco mais como funciona tudo e todas as pequenas etapas que eles precisam superar, em questão de aprovações governamentais, estratégias de rota, mapas que vão utilizar e tudo mais, onde você fica com o coração na boca sentado na cadeira enquanto a voz Hind Rajab ecoa do outro lado da linha.

Você não ouvia uma respiração, um ah, na minha sessão no Festival do Rio. A cada momento que esse time conseguia algum tipo de avanço enquanto esperava as confirmações, A Voz de Hind Rajab ficava mais tenso de se assistir e a plateia parecia segurar a respiração.
A direção de Hania segue a cartilha desses filmes do gênero como Por Um Fio (2002) e até mesmo O Culpado (a versão dinamarquesa de 2017 e também a americana da Netflix com Jake Gyllenhaal em 2021) e a câmera está ali colada no rosto dos atores e permanece boa parte do filme. É um trabalho simples, mas que é elevado pelas atuações dos atores, que aqui, estão excelentes.
Um dos momentos mais interessantes e que Hania tenta alguma coisa nova em A Voz de Hind Rajab é quando em uma das cenas um celular e uma mão surge em tela e vemos a filmagem com os operadores reais se mesclar com os atores em dramatização e fica claro que está tudo muito bem reproduzido.
Os trejeitos, as vozes, os figurinos, é um grande choque que nos faz lembrar mais uma que isso, tudo isso aconteceu de verdade. Não é como se estivéssemos vendo um filme de super-herói onde uma luz cósmica aparece e destrói a cidade, os heróis salvam o mundo, o filme acaba, e vamos para casa sabendo que era um filme de ficção. O que acontece em A Voz de Hind Rajab, aconteceu. De verdade. Pode não ser perto de onde, eu, ou você mora, ou vive, mas aconteceu, com alguém.
E isso amplia, e arrepia, a perspectiva do filme. No meio do conflito que apenas escalona na vida real e que parece que não vai ser resolvido tão cedo, A Voz de Hind Rajab é mais um instrumento que serve para colocar uma luz no tema e nos fazer lembrar que uma guerra brutal e impiedosa acontece naquela região.
A falta de uma distribuição americana, um dos principais mercados do mundo, se não o principal, mostra ainda que a politicagem ainda ronda bastante Hollywood. Aplaudido por 20 minutos em Veneza e tendo levado o Leão de Prata, Grande Prêmio do Júri no festival, esse destaque que o filme teve apenas corrobora o que A Voz de Hind Rajab quer falar. E como filme, a produção fala por si próprio, já que além de ser muito bom se firma como um dos mais importantes do ano e entrega um retrato desse momento histórico que ficará para posteridade para as gerações futuras lembrarem o que a humanidade passou.
Filme visto no Festival do Rio em Outubro de 2025.
A Voz de Hind Rajabtem distribuição no Brasil confirmada pela SYNAPSE, mas sem previsão de estreia no país no momento.











