Logo nos primeiros momentos, quando ouvimos o protagonista narrar o começo dessa história, fica claro que definitivamente Estilhaços é, e vai ser, uma verdadeira série de Ryan Murphy, então espere um pouco de suspense, alguns exageros, um clima de sedução e uma excelente trilha sonora. Por que é isso que a atração entrega, pelo menos nos 3 episódios iniciais.
Afinal, estamos nos anos 80 em Los Angeles e acompanhamos um grupo de jovens lindos, descolados, ricos e com muito tempo de sobra. E então adicione um clima de sedução e uma dose de obsessão, paranoia, e voilà: tenha uma nova e cativante produção no streaming pronta para se tornar a nova… a série do momento.
Mas ao mesmo tempo que Estilhaços é provocante, também é ambígua em sua narrativa que demora para mostrar para que veio, para onde quer ir e no desenvolvimento dessa história. Claro, temos um grupo de jovens que veem suas vidas serem mudadas com a chegada de um serial killer na região, mas ao mesmo tempo, Estilhaços cozinha este e diversos outros arcos que a atração apresenta neste início. Um início que é promissor, sem dúvidas, sedutor, claro, mas muito mais expositivo e calmo do que parecia ser e precisava ser. Tudo parece ser apenas um aperitivo e nunca a refeição principal.
Baseado no livro de mesmo nome (não disponível em português no momento) escrito por Bret Easton Ellis, Estilhaços sofre do mal de produções mais recentes do streaming que são projetos serializados que querem ser um filme de x horas. Falta um certo sentimento de urgência em querer fisgar o espectador logo de cara e deixar o famoso “slow burn” fazer o serviço.
E, tendo sido baseada em outra mídia, é notada aqui a forma como essa atração apresenta, desenvolve e conta sua história. E para uma série que fala sobre os hormônios em ebulição dos adolescentes, festas, sexo, drogas e rock and roll, Estilhaços acaba por nem f***, nem sair do muro.
Afinal, a série só flerta com todos os embates e conflitos que só apresentados e nunca chegam, pelo menos nesse começo, ao clímax. Assim por dizer. É tudo muito sugestivo do que pode acontecer e das possibilidades narrativas que as coisas podem se desenrolar nos próximos episódios. É o caso do jovem novo aluno Robert Mallory (Homer Gere) que chega transferido para o último ano de uma escola de elite de Los Angeles cheio de mistérios e que promete ser uma pedra no sapato (ou no mocassim, claro) do protagonista Bret (Igby Rigney, muito bem, o melhor do elenco jovem) à medida que ele se dá bem com o grupo formado pela certinha Susan Reynolds (Kaia Gerber melhorando papel após papel) e o namorado meio bobão (mas extremamente charmoso) Thom Wright (Graham Campbell) e pela espalhafatosa Debbie Schaffer (Hayes Warner) com quem Bret tem um relacionamento.
Enquanto Estilhaços mostra essa Los Angeles pelos olhos de Bret e é narrada pelo próprio, um serial killer se espreita pelas ruas abastadas da cidade, e começa a aterrorizar a comunidade de ricaços da região à medida que vemos os jornais locais darem atenção para o caso e para os desaparecimentos dos jovens. Mas, logo de cara, fica claro que Bret não é um narrador muito confiável. Afinal, são os seus relatos que guiam a narrativa e moldam a forma como essa história é contada.
Não estou falando que a atração é ruim, pelo contrário, o primeiro episódio (o melhor da primeira leva) é dirigido por Murphy e tem um quê de sofisticação visual bastante impressionante. É a forma como ele consegue captar a aura desse grupo, o sentimento de importância, o magnetismo e a sensação de ter o mundo dado de bandeja para esses personagens que é bastante interessante de notar o cuidado que a produção teve: dos figurinos impecáveis, das locações que recriam os anos 80 da cidade, e da já citada trilha sonora com hits oitentistas.
Mas é a forma como tudo é apresentado que talvez deixe a desejar. Quase como se fosse um delírio, um lapso de uma memória e uma narrativa que flerta com o inventado e o real. Quase como se fosse mesmo estarmos assistindo o reflexo de um espelho e não o objeto em si, sabe?
Afinal, o serial killer pouco está ativo nesse começo, e quais as chances de Robert ser ele igual Bret acha? Enquanto isso, as complexas relações entre esses personagens ainda estão na superfície: seja a relação de Debbie com a mãe Liz (Evan Rachel Wood) que parece enfrentar o mesmo problema que a filha, onde ambas não sabem (ou não querem admitir que sabem) da sexualidade dos parceiros, Bret tenta vender seu roteiro para o pai dela, um poderoso e influente figurão de Hollywood Terry Schaffer (Wes Bentley, o melhor disparado do elenco num papel muito bom) que tem uma queda por homens mais novos que ele, e a rixa entre Bret e Robert parece apenas patética, mas que movimenta o início da temporada de certa forma.
Estilhaços tem um potencial absurdo de ser muito boa, o elenco está bastante entrosado e se beneficiam do clima de mistério que a atração passa, mas vai depender de como as histórias e as possíveis reviravoltas vão ser desenroladas ao longo dos episódios. Talvez, um formato de maratona ajudasse nesse caso.
No final, essa série de nepobabies (Kaia Gerber é filha de Rande Gerber e Cindy Crawford, Homer Gere é filho deRichard Gere) atrai mais pelo visual e pela grife Ryan Murphy do que pela entrega de verdade. O glamour de LA dos anos 80 faz maravilhas para a atração que usa isso a seu favor, sem dúvidas, igual vimos na franquia Crime Story, mas para quem está esperando alguma coisa mais gore e slasher como Horror Story, talvez, esse projeto não seja para você. De qualquer forma, Estilhaços entrega um início empolgante, divertido e cheio de momentos que nos prendem para saber o que vai acontecer. O ar da antecipação é pesado e sentido aqui e mal posso esperar para ver o que vem a seguir.
A série vai estrear com os dois primeiros episódios no dia 5 de agosto, às 22h, no Disney+.
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