Devoradores de Estrelas | Crítica: A grandiosa aventura espacial de Ryan Gosling

Mesmo com uma carreira consolidada em Hollywood, Ryan Goslingnão parecia ser um ator feito para o grande público e para as massas. Claro, ele tem uma fanbase entre os cinéfilos (por Dois Caras Legais, Drive, Blade Runner 2049), com o público feminino (La La Land, Diário de Uma Paixão) e, sim, ganhou bastante visibilidade após interpretar (e ser indicado ao Oscar) Ken no mega blockbuster Barbie.
Mas toda aquela publicidade e ter estado por meses no holofote, não foi o bastante para emplacar, por exemplo, o projeto seguinte, a comédia de ação O Dublêque definitivamente não soube se conectar com o público casual e amargou números não muito bons de bilheteria. E não só isso, pareceu que Gosling e o timing cômico impecável que ele havia apresentado como o boneco iria ficar apenas reservado na onda rosa que o filme trouxe e marcou aquele ano.
Mas aí, o ator muda completamente essa trajetória e vem com Devoradores de Estrelas(Project Hail Mary, 2026), um blockbuster (talvez, o primeiro do ano) disfarçado, uma produção milionária da Amazon, com reportes de um gasto de US$ 200 milhões, adaptação de um livro queridinho do público, e com diretores que se deram muito bem no campo da animação. E faz acontecer.

Já que depois de ver Devoradores de Estrelasem IMAX, fica claro que sim, Gosling tem mesmo em si o timing cômico perfeito e o filme usa isso muito a favor. Devoradores de Estrelas faz, sem dúvidas, uma das melhores experiências recentes para ser vista nos cinemas. Uma colorida, grandiosa e impecável. E por conta dos trabalhos com os filmes animados do Homem-Aranha, a dupla de diretores Phil Lord e Christopher Millerentendem a importância de contarem esse filme da forma mais visualmente impressionante possível.
Afinal, Devoradores de Estrelas é, em grande parte, somente Gosling no espaço, numa nave, em missão para tentar salvar o sistema solar de desaparecer, em que o ator interage com uma pedra alienígena feita com efeitos práticos que está também em uma missão bastante parecida: descobrir o que são as pequenas partículas que se espalham e vão, aos poucos, acabar com o Sol e consequentemente com toda a vida na constelação, galáxia, universo e tudo mais.
E também, é bastante interessante ver a forma como o roteiro de Drew Goddard (um dos criadores de uma das novas séries de maior audiência da TV americana: Uma Mente Excepcional), ao adaptar a história do livro de Andy Weir, apresenta os dados científicos, as análises e previsões de uma forma que acabe por ser mais simples do que apenas ficar soltando frases e argumentos difíceis por ai para quem não é formado em física e apenas é uma pessoa que casualmente quer ver uma ficção cientifica nos cinemas.
Principalmente quando vemos o professor de ciências do ensino fundamental Ryland Grace(Gosling esbanjando carisma) ser recrutado pela misteriosa e com cara de poucos amigos Eva (Sandra Hüller, ótima, num primeiro grande papel após o excelente momento que teve com Anatomia de Uma Queda e Zona de Interesse alguns anos atrás) em que ela apresenta mais sobre o estudo que tem conduzido sobre os tais eventos que podem mudar o rumo da civilização nos próximos anos e que ela, e um bando de outro cientistas, de diversas partes do mundo, querem impedir.
Mas Devoradores de Estrelas não começa aí com tudo apresentado e mastigadinho. Pelo ao contrário, começa com Grace, já no espaço, sozinho, depois que toda a tripulação morreu, e ele não sabe qual é a missão que foi enviado, e nem como ele foi parar lá. E nem a gente. O que dá um senso de urgência e de investigação para a narrativa bem interessante nesse primeiro momento.
Assim, ter Gosling sozinho, no espaço, andando de meia e camisetinha pela nave, enquanto tenta coletar pistas e informações, enquanto nós, os espectadores vamos por também fazer isso (e tudo é apresentado em cenas de flashback) acaba por ser uma aventura convidativa para formarmos esse quebra-cabeça que Devoradores de Estrelas se abre.
E que para nós, curiosos de plantão, se transforma num desafio pra lá de interessante de se descobrir. E acho que o trabalho de Goddard com o roteiro é um que sabe entregar essas pistas aos poucos para desvendarmos junto com Grace, e com a história que aos poucos se desenrola, tudo que aconteceu, vai acontecer, e o que o professor/astronauta precisa fazer para a missão e o plano deles dar certo.
E até mesmo a entrada da figura do alienígena Rocky (por ele ser uma pedra, risos, e por conta do filme Rocky Um Lutador) apenas aumenta um certo tipo de humor que o longa tem e que é salpicado ao longo da trama aos poucos, mas que com a presença do personagem apenas é elevado e que dá a chance para enfim Gosling mostrar para que veio.
Afinal, Devoradores de Estrelas cria esse clima de amizade, de camaradagem, entre um humano e uma pedra muito bem. E quem diria que numa manhã que fui ver filme na sessão de imprensa eu iria sair choradinho com essas suas figuras?

E toda a parte em que Grace conhece Rocky, eles precisam bolar uma forma de se comunicarem, todos os planos criados para “vencerem” a partícula que se alimenta de estrelas (no caso o Sol) e ainda para voltarem para seus respectivos planetas é uma bastante curiosa e que filme sabe muito bem trabalhar seus momentos. E claro, como falamos, sem deixar de entregar visuais maravilhosos do espaço.
O olhar aguçado, e artístico de Lord e Miller, agora novamente em live-action, é primordial para fazer Devoradores de Estrelas se destacar nesse quesito e já ser um dos favoritos para o Oscar 2027 em diversas categorias técnicas.
E enquanto Devoradores de Estrelas deslumbra também garante algumas poucas reviravoltas na narrativa, na medida que as cenas do passado, ou seja, quando Grace, Eva, um engenheiro interpretado por Lionel Boyce de O Urso, e o time de outros cientistas (entre eles Ken Leung) bolam a missão para mandar a nave para o espaço para coletar informações, começa a paralelamente nos dar respostas sobre os eventos do presente com Grace e Rocky, onde o filme ganha um certo ar agridoce de melancolia muito grande e definitivamente fará o público sair tocado e emocionado da sessão.
No final, quase como um grande novelão, Devoradores de Estrelas mostra que alguns laços de amizade são mais que universais e que podem percorrer diversas galáxias e mostrar que uma amizade improvável não está a anos luz de se formar. Até mesmo se você ver um humano engraçadinha e uma pedra meio excêntrica sentados num grande projetor holográfico em 3D conversando e rindo.
Devoradores de Estrelas chega nos cinemas em 19 de março.











