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Festival do Rio | Depois da Caçada | Crítica: Um filme sobre consequências

“Nem tudo tem que te deixar confortável.” Essa frase que a personagem de Julia Roberts diz em uma discussão é o que meio que resume o que é a experiência de assistir Depois da Caçada(After The Hunt, 2025), o novo filme do diretor Luca Guadagnino que vem numa sequência muito boa de filmes sobre obsessão, após Rivais e Queer.

E com Depois da Caçada, Guadagnino nos agracia com mais um filme visualmente impecável, e aqui, com três atores principais que entregam os seus melhores e que fazem, e muito, acontecer com um roteiro que em si é a parte mais fraca dessa produção. Ser cheio de pompa e ter Roberts, o sempre excelente Andrew Garfield e Ayo Edebiri, quase compensa o caos narrativo que Depois da Caçada joga o espectador logo nas primeiras, e incômodas, cenas do filme em que um relógio toca incansavelmente e interruptamente.

Foto por Courtesy of Amazon MGM Studios/Courtesy of Amazon MGM Studios – © 2025 Amazon Content Services LLC. All Rights Reserved.
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Tique taque. Tique taque. Tique taque. O crocodilo vem aí. O tempo corre em Depois da Caçada e Guadagnino consegue, por conta da trilha sonora e da edição, demonstrar isso em tela. O tempo corre, e se move de diferentes formas para todos os personagens, onde, de certa forma, Depois da Caçada se mostra personificação do meme: se você deslogar do Twitter esse problema ainda existe?

Digo isso, porque, no longa, a professora Alma Imhoff(Roberts, numa atuação espetacular) vive cercada de estudantes de filosofia da turma em que leciona na Universidade de Yale que a bajulam e a adoram. É uma mistura de privilégio, de viver um ar rarefeito e que tem um que esforço vs quem tem dinheiro. Ela adora esse puxa-saquismo todo que alimenta seu ego e eles se sentem parte de um grupo exclusivo liderados por um dos grandes nomes na área. O mesmo vale para seu marido Frederik (Michael Stuhlbarg que volta a trabalhar com Guadagnino depois de Me Chame Pelo Seu Nome) que está ali, de certa forma, como o marido troféu, e acompanha de longe, a esposa e os pupilos, mas que também parece observar e entender tudo que se passa no círculo social que a esposa forma. De certa forma, mesmo sendo uma figura excêntrica, é a mais lúcida entre todos os personagens e Stuhlbarg faz valer todas as cenas que está.

Depois da Caçadaapresenta essas dinâmicas em uma festa, onde Alma e Frederik, recebem a nata intelectual de Yale, os debates fogem do trivial e questões super complexas são tratadas como small talk ao longo de drinks e comidinhas. Entre os protegidos de Alma, estão Hank(Garfield, mais uma vez mostrando seus talentos) e Maggie (Edebiri, lutando para deixar sua personagem em O Urso de lado) que competem pela atenção da professora, competem entre si, e competem para chamar a atenção um do outro.

E Guadagnino trabalha nas sutilezas visuais, seja com um espelho em cena, um toque de mão, um olhar distante que muda rapidamente, para apresentar essas dinâmicas, e essa estrutura de poder que rola na prestigiada universidade. É uma história de obsessão, sem dúvidas, como falamos, mais uma para o currículo de Guadagnino que acerta em cheio. Mas um filme é, e deve ser, mais do que isso. Precisa ser mais do que apenas bonito e bem filmado.

Já que mesmo que envelopado num bom pacote, o roteiro e forma como a narrativa é conduzida deixa a desejar. Afinal, os debates, as dúvidas plantadas, afetam a trama e fazem de Depois da Caçada ser expositivo demais e deixar o espectador formar um lado para essa história, quando que talvez precisasse guiar um pouco mais na narrativa. Afinal, quando uma acusação de assédio explode e ecoa pelos corredores da universidade, e a discussão sai do teoria (ou se assim por dizermos das redes sociais) e é inserida no mundo real, com verdadeiras, perigosas, e transformadoras consequências, você percebe que o roteiro de Nora Garrett não está preocupado com a busca pela verdade, e sim, em te apresentar uma avalancha de informações, e pedaços de um quebra cabeça totalmente inserido nas discussões atuais e no choque de gerações.

Foto por Yannis Drakoulidis/Yannis Drakoulidis – © 2025 Amazon Content Services LLC. All Rights Reserved.

Não é um debate político, e sim, de gênero, e de como as informações são moldadas, as discussões são acaloradas, e depois, uma nova “polêmica” se torna o centro das atenções. E ao tratar desse tema da cultura do cancelamento, anos depois que Me Too explodiu, Depois da Caçadachega um pouco depois na discussão, infelizmente. Particularmente, acho que faz um filme que definitivamente faz companhia para os debates de Bela Vingança, Tár e em partes Anatomia de Uma Queda, mesmo sendo mais fraco de todos eles.

O lado bom é que o roteiro pinta todos esses personagens por serem mais do que são. E Guadagnino entende isso, e os atores, também, e conseguem elevar o material que é apresentado. Seja quando Guadagnino filma Alma e Hank conversando numa lanchonete, e toda vez que o personagem de Garfield conta sua versão da história, a câmera está posicionada para mostrar ele e sua imagem refletida, quase como visualmente o diretor quisesse te mostrar o quão ambíguo é acreditar ou não nele. E quando Hank mostra seu verdadeiro eu, Guadagnino foca exclusivamente no rosto bem diagramado de Garfield.

O mesmo vale para Roberts e Alma. E o trabalho de Guadagnino é engrandecido no simples. Já que o subplot da professora que envolve, um segredo de anos, a relação curiosa com o marido que é mais um que a idolatra, com uma colega interpretada por Chloë Sevignyem uma peruca horrorosa, e uma doença grave que segue como se fosse uma panela de pressão prestes a explodir. E que sim, explode. Já a personagem de Edebiri navega entre diversas camadas e narrativas que a fazem de “vítima” para “opressora” num prisma que soa confuso para esse tipo de história. Afinal, tem toda a questão que envolve Hank, claro, mas também tem toda a estranha dinâmica que envolve Maggie e Alma, com as questões de sororidade, mulheres unidas vs só tem um espaço para uma mulher no topo, de gênero no ambiente de trabalho, e também de racial, que são esmiuçada pelas atrizes em duas conversas que terminam de forma explosiva nas duas oportunidades (no estacionamento e no pátio da faculdade).

Elu, agora não! Assim, Depois da Caçada precisa lidar com muitas coisas, e no final, meio que passa por tudo, sem desenvolver muito tudo que apresenta. O filme mostra o poder das consequências das ações desses personagens ao longo dessa história, onde, aos trancos e barrancos, em suas mais de 2h20 minutos de duração, não está preocupado em definir culpados e sim apresentar todos os lados e inundar, e imergir, o espectador, com dúvidas. É polêmico? Sim. Vai ser divisivo? Sim. É bom? Até que é. Veria de novo? Não. Afinal, não estamos aqui para agradar ninguém.

Avaliação: 3.5 de 5.

O longa chega nos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro em 09 de outubro e depois expande para outras cidades em 16 de outubro.

Visto no Festival do Rio em Outubro de 2025.




















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