Como a série documental de A Mulher da Casa Abandonada é diferente do podcast? Produção responde

Lançado em 2022, o podcast A Mulher da Casa Abandonada foi um dos mais ouvidos no país, gerou inúmeros debates, discussões (algumas válidas outras não) e teve uma grande repercussão tanto on-line, quanto no “mundo real”.
O que começou com a curiosidade sobre o casarão que estava de pé (mais ou menos né?) no coração do bairro de Higienópolis, na cidade de São Paulo, partiu para ser um mistério sobre a única residente do lugar em ruínas, uma mulher que habitava o lugar com a cara pintada e as roupas mais simples, e logo se tornou um evento midiático que envolveu não só a imprensa, como a polícia, os moradores das região, e claro, os curiosos de plantão.
Mesmo com uma cobertura por parte da mídia com um tom sensacionalista, uma memetização impulsionada pelas redes socais pós-pandemia, o podcast conseguiu ainda trazer uma luz para um caso de polícia que tinha sido deixado de lado lá nos EUA.
A tal morada misteriosa era Margarida Bonetti, acusada, juntamente com seu ex-marido, de agredir e manter ilegalmente a trabalhadora doméstica brasileira Hilda Rosa dos Santos, no país, durante os anos 2000.
O podcast repercutiu e muito e agora, anos depois, o Prime Video lança a série documental que não só conta em formato visual os principais acontecimentos que levaram a criação e que seguiu a linha de investigação feita pelo jornalista Chico Felitti, como também acaba por expandir tudo que se sabia da história.
A Mulher da Casa Abandonada, a série, agora conta também os relatos da vítima pela primeira vez com materiais inéditos que compõem a complexa história que começou como um projeto de pandemia, mas que teve, ao longo dos anos, diversas consequências e repercussões, como, por exemplo, à criação de uma lei americana que protege vítimas de trabalho forçado, que permite que trabalhadores que denunciam abusos possam permanecer legalmente naquele país.
Em evento realizado em São Paulo pela Amazon, tanto Felitti, quanto Kátia Lund(a diretora do projeto) e Mariana Paiva(uma das roteiristas da série documental) falam um pouco sobre o seriado e como a atração documental é diferente do podcast.
Confira os principais tópicos:

- Transportar o que o podcast tinha apresentado para as telas
Com 3 episódios, A Mulher da Casa Abandonada conta a história desde do começo e vai além do que foi apresentado na versão em áudio. A diretora Kátia Lund conta que a pesquisa para a série documental levou mais de 1 ano com um time no Brasil e nos EUA.
Para Lund, um dos principais desafios foi descobrir o que transportar do que foi contado em áudio para as telas. A diretora comentou: “Queríamos tentar entender como é que costurava essa história. Porque o podcast do Chico tem um mistério que ele vai criando, né? Que vai surgindo na cabeça do espectador, ele vai levantando muito mais perguntas do que dando resposta. E isso vai engajando o espectador né? Mas aí, como é que eu faço para botar na tela uma coisa que é um mistério, né? Então, eu tive muita ajuda, tanto da Coiote [a produtora], todos os pesquisadores, dos roteiristas e fomos aos poucos costurando tudo. Demorou bastante.”
- O trabalho do roteiro para ajudar a re-contar essa história
Lund comenta que o trabalho dela, junto com a diretora Lívia Gama e Yasmin Thayná, as outras diretores de episódios, com o time da Amazon e com o time de roteiristas foi fundamental para estruturar o seriado.
Por que afinal, eles tinham que recriar as cenas que era contadas somente em áudio. Lund comenta: “A participação da Lívia foi fundamental na construção das imagens evocativas que a gente chama, que são as encenações. Enquanto eu filmava em Washington, D.C. e fazia as entrevistas, a Lívia foi estudando tudo que tava sendo filmado e ela foi tirando um pouco em cima dos roteiros que a gente tinha conversado, quais cenas daria para fazer, ver de que jeito, e ela junto com a uma equipe de ficção construíram as cenas cinematográficas que ajudam na imersão e na construção dessa visual todo, que é o resultado da adaptação do podcast.”
- Ser além do podcast
Para o jornalista Chico Felitti, voltar para essa história, teria que ser alguma que fosse além do que foi contada no podcast. “Quando se pensava em fazer uma adaptação, ou quando surgiu a oportunidade de fazer a adaptação, para mim só faria sentido se fosse além do podcast.” afirma o jornalista.
Para ele, a história contada merecida mais do que ser apenas o podcast em mídia visual. “É uma coisa que acontece muito, acho que mais nos Estados Unidos do que aqui, que é de pegar um podcast que fez algum sucesso e transpor ele para a tela só com imagem de cobertura, assim, exatamente o mesmo roteiro, os mesmos entrevistados, a mesma história e eu achava que essa história merecia mais, sabe?”
Então para ele contar a mesma história em outro formato não era o bastante. Principalmente por que quem tinha já ouvido o podcast já sabia um pouco da história e o sentimento de mistério ficaria meio vazio. Ou falso como ele afirma. “O podcast foi um mistério pessoal, assim, foi uma coisa que eu realmente fiquei curioso em relação ao que era a casa, eu não sabia quem era essa essa mulher e acho que fazer uma série que fosse literalmente botar em ordem o podcast seria falsiar, sabe? Seria fingir que esse mistério ainda existe, esse mistério não existia mais. Então, partindo desse mistério que o podcast começou a investigar esses cara, como é que a gente vai aprofundar essa história e como é que a gente vai trazer elementos que não estavam lá.”
Na época de pré-produção, o jornalista comentou que para ele a ideia do que tinha que ser a série estava bem claro: “Porque eu sei que a Katia vai conseguir contar uma história diferente dentro de um caso parecido e e acho que é o resultado da série.”

- A inclusão do lado da vítima nos roteiros
O time de roteiristas da série A Mulher Da Casa Abandonada é formado pelo time de profissionais Tainá Muhringer, Fernanda Polacow, Henrique dos Santos, Mari Paiva e Karolina Santos, mas a roteirista Mari Paiva representou o grupo no evento da Amazon e foi quem comentou um pouco o processo de pré-produção do seriado que partiu muito do que foi apresentado no podcast e também das pesquisas da produção ao longo dos meses.
A roteirista diz que o grande ponto de virada para a série foi quando Hilda Rosa dos Santosaceitou falar com a produção. Paiva diz: “Para a gente foi uma grande surpresa quando a gente pôde contar com a presença ali da Hilda e que viraria toda a história. E para mim, pessoalmente, foi, eu acho que é a cereja do bolo, né? Ter a Hilda para contar a versão dela.”
Para Paiva isso não foi só fundamental para o seriado conseguir se distanciar do podcast, mas também para contar com a presença da vítima para contar sua história. A roterista comenta: “[A série] traz uma uma vítima para falar como o crime aconteceu e faz uma ressignificação do que aconteceu, né? Porque ela viveu 21 anos ali, em trabalho trabalho análogo à escravidão e conseguiu ressignificar sua história. Eu acho que aquela aquela cena que aparece aqui no primeiro episódio dela falando ao telefone, é uma cena que resume muito a personagem, né? Porque a Hilda é isso, assim, ela tem um humor muito forte e ela tem uma coragem muito grande, né, de ter conseguido contar tudo que aconteceu. Então, pra gente na sala de roteiro, a Hilda, foi muito a nossa guia durante a contação da história.”
Para Lind, a presença de Hilda mudou também a forma como a série foi feita. “A gente achava que a Ilda não ia querer participar. Porque o Chico convidou ela para participar do podcast e ela pediu para não participar. E ele respeitou. Então, e também nem revelou o nome dela, né? Então, quando eu entrei em contato com ela, eu tava preparada para ela dizer que não queria aparecer. E aí, nesse caso, a gente ia ter que escolher um outro caminho total, né?”
Mas o sim de Hilda fez com que A Mulher Da Casa Abandonada ganhasse uma nova forma e que entrevistar ela acabou por ser um trabalho de formiguinha, mas extremamente importante para o projeto. Lind comenta: “Então, foi uma construção e eu voltei muitas vezes, né, durante um ano, construindo essa relação com ela.”
- A série de A Mulher da Casa Abandonada agora foca em quem tinha que focar.
Para Felitti, a série agora também consegue contar mais um pouco da história que não foi possível no podcast. O jornalista afirma: “Pelo fato dela ter topado depois de 20 anos em silêncio contar a história dela em nome da sociedade, em nome de ajudar os outros, é a série. Não podia ser outra coisa. A partir do momento que ela fala, é a série, não tem outra perspectiva, não tem a mulher de cara branca na janela, não, não, não, não é isso, isso tá lá, mas fica, fica em segundo plano, assim, a série é isso, assim, a série é é as raízes e as folhas desse caso.
“As raízes que são explicar porque isso ainda acontece no Brasil muito, infelizmente, mas enfim, o Brasil é um dos países que mais explora trabalho do mundo e esse trabalho tem gênero, esse trabalho tem cor, quando é trabalho doméstico é mulher e preta e as folhas são os frutos que essa coragem dela deu que são, cara, mudou a sociedade.”
Hilda ainda vive nos EUA.
Hilda tem mais de 90 anos.
Hilda pôde contar a sua própria história.
Os três episódios da série documental A Mulher da Casa Abandonada estão disponíveis no Prime Video.











