A Odisseia | Crítica: Não sabendo que era impossível, Nolan foi lá e fez a experiência cinematográfica do ano.

Em uma das cenas logo no começo de A Odisseia (The Odyssey, 2026), dois personagens discutem e falam sobre imortalidade e deuses, e isso basicamente define bem o que é o novo projeto do diretor vencedor do Oscar Christopher Nolan: um trabalho não só que define carreira, mas que também supera muito do que já tinha sido superado anteriormente.

E pela bagatela de reportados US$ 250 milhões, dá para dizer que A Odisseia é um dos maiores filmes do ano, não só por conta do orçamento colossal, mas por tudo que é entregue do momento que você pisa no cinema para assistir essa história ser contada. Afinal, se tinha alguém que seria capaz de trazer para os tempos modernos uma adaptação dessa que foi uma das primeiras histórias da humanidade, um conto carregado de simbologias e que reverbera e é contada há séculos, era o diretor recém-saído do seu primeiro Oscar com Oppenheimer.

A Odisseia seria o próximo filme do diretor, e quem não iria querer trabalhar com ele logo em seguida a Nolan estar no ápice e cheio de prestigio e capital social para gastar, certo? Nolan e seu próximo filme era a hot commodity do momento e o diretor já colocou em prática para tirar do papel esse projeto que sem dúvidas é um extremamente ambicioso.

Matt Damon e Zendaya em cena de A Odisseia. Photo by Melinda Sue Gordon/Universal Pic/Melinda Sue Gordon – © Universal Studios. All Rights Reserved.
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Com A Odisseia, o diretor recrutou um elenco cheio de estrelas, nomes conhecidos (alguns que já trabalharam com ele em outras oportunidades), e realmente entregou mais uma vez um trabalho impecável de produção que se destaca em diversas frentes: som, figurinos e, claro, nas cenas filmadas em IMAX (o primeiro longa no formato), as quais fazem total diferença.

E toda essa combinação de fatores é o que faz A Odisseia ser a experiência cinematográfica do ano. Um trabalho homérico de todos os envolvidos e que ajuda a contar essa história de superação, amadurecimento, deuses e monstros. E se Nolan conseguiu envelopar A Odisseia com um trabalho técnico impecável mais uma vez, é por conta do elenco escolhido aqui, que faz do projeto um que realmente chama a atenção pela forma como o diretor se debruça na fragilidade dessas relações humanas num mundo onde deuses cheios de vontades, egos gigantes e arrogância dominavam.

Aqui temos, sim, essas figuras lendárias e que governavam os céus, mares e guerras, mas são os humanos e principalmente uma família despedaçada que são o centro de A Odisseia num mundo em total conflito, dividido e quebrado por relações que não são nada aprofundadas. É da cobiça, da ambição e da determinação desses diversos personagens que navegam por diferentes espectros do bem e do mal que Nolan tira o cerne para essa narrativa baseada na obra clássica de Homero.

O sequestro de Helena de Troia (Lupita Nyong’o incrível e belíssima aqui mesmo com poucas falas), o início da Guerra e o consequente envolvimento de Odisseu (Matt Damon, ok aqui mesmo que definitivamente deve conseguir uma indicação de Melhor Ator) com a empreitada do Rei Menelau (Jon Bernthal) são o estopim para o início dos eventos retratados no filme, mas Nolan segue também com a história de forma não linear para contar a jornada não só de Odisseu ao longo dos anos, mas também do filho Telêmaco (Tom Holland, talvez, o elo mais fraco, sendo ele mesmo aqui, ou seja, a figura Tom Holland que ele passa online) em busca do pai. Além, claro, dos conflitos que surgiram na região desde que o trono em Ítaca ficou vago por anos.

Anne Hathaway em cena de A Odisseia. Photo by Melinda Sue Gordon/Universal Pic/Melinda Sue Gordon – © Universal Studios. All Rights Reserved

É onde vemos a Rainha Penelope (Anne Hathaway no melhor papel dos diversos filmes que estrelou no ano até agora e que faltam dois) não só proteger o legado do marido como também se recusar a casar com os diversos pretendentes, entre eles Antinous (um excelente Robert Pattinson que também tem um 2026 promissor com O Drama no começo do ano, esse e também os inéditos PrimeTime e Duna: Parte 3) que invadiram o palácio para forçá-la a se casar novamente.

Nolan, de forma hábil, estabelece os principais personagens nesse jogo de xadrez que é contado aos poucos num vai e vem narrativo. E, para um filme de quase 3 horas, isso não soa cansativo, mas é uma árdua missão, sem dúvidas. Por outro lado, a edição de A Odisseia é surpreendentemente ágil e se move entre essa gama de personagens de uma forma na qual passamos poucos minutos em cada uma das cenas. Seja isso um desafio para os montadores na ilha de edição por conta das filmagens com as câmeras IMAX só durarem pouco mais de 2 ou 3 minutos, ou por uma questão de escolha narrativa, particularmente senti que essa agilidade apenas contribui para o filme ganhar uma certa necessidade e umsenso de urgência muito grande.

Claro, aliado a isso, temos o trabalho do compositor (também vencedor do Oscar) Ludwig Göransson que é primoroso e ajuda a dar o sentimento de tensão e imersão que diversas cenas passam. E isso ficou claro principalmente ao ver A Odisseia em um formato premium (vimos em IMAX na sessão de imprensa), o que fez também a total diferença.

Afinal, seja em momentos mais íntimos, de conversas e discussões, seja em cenas de batalha grandiosas que o longa apresenta, Göransson parece conseguir capturar o sentimento que aquele tipo de cena precisava passar. Seja o terror ao encontrar um Ciclope numa caverna, os horrores de cruzar caminho com sereias ou até mesmo quando uma rainha, mãe e mulher percebe que talvez, depois de 20 anos, seu marido não vem mais para casa.

Mas o trabalho de Göransson realmente brilha no épico, principalmente quando vemos Odisseu contar como ele e seus soldados invadiram, dentro de um cavalo oco de madeira que foi colocado dentro da cidade de Troia como uma forma de homenagem para a Deusa Athena (Zendaya aqui em curtos momentos, mas com uma cena, em particular, extremamente poderosa lá para os momentos finais). São momentos com o som no talo que realmente mostram um trabalho impressionante.

Robert Pattinson em cena de A Odisseia. Photo by Melinda Sue Gordon/Universal Pic/Melinda Sue Gordon – © Universal Studios. All Rights Reserved

Enquanto A Odisseia navega pelas aventuras de Odisseu e o vemos conversar com Calypso (Charlize Theron) e com os segredos que os dois desvendam sobre os acontecimentos prévios, Nolan cria essas figuras da mitologia de uma forma muito interessante de se assistir e da forma mais realista possível. Seja o Ciclope de um olho só, a feiticeira Circe (Samantha Morton excelente aqui também), as sereias e os próprios Deuses em si. Mas é com os personagens humanos, os contrastes entre eles, suas ambições, ideais e lealdades que o filme triunfa e deixa de ser apenas um espetáculo pelo espetáculo, o que era uma coisa já esperada de Nolan após TenetOppenheimer, transformando-se em algo a mais e diferente na filmografia do diretor.

Ao contar uma história imortalizada há anos, Nolan mostra por que A Odisseia se manteve no imaginário popular ao colocar uma lupa em diversas passagens que se espelham com os acontecimentos do mundo de hoje. É um trabalho impressionante de adaptação de história que vai além de apenas entregar um bom trabalho técnico mais uma vez.

Realmente é um filme que deve estar em todas as listas de melhores do ano. É um trabalho monumental de se ver, acompanhar por quase 3 horas e realmente assistir deslumbrado à maravilha que é apresentada aqui. Quando se falar de filmes épicos de guerra, falarão de A Odisseia, sem dúvidas. Um verdadeiro marco no cinema em 2026.

Nota:

A Odisseia chega em 16 de julho nos cinemas.

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Miguel Morales

Sempre posso ser visto lá no Twitter, onde falo sobre o que acontece na TV aberta, nas séries, no cinema, e claro outras besteiras.  Segue lá: twitter.com/mpmorales

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