Meio que já está virando tradição ver o ator Hugh Jackman interpretar personagens que se despedem enquanto refletem sobre suas jornadas ao longo dos anos cheio de batalhas e altos e baixos. O ator fez isso como Wolverine em Logan (2019), repetiu a dose em Deadpool & Wolverine (2024) e, agora, abraça esse mesmo tom com a lenda do famoso arqueiro que rouba dos ricos para dar para os pobres em A Morte de Robin Hood (The Death of Robin Hood, 2026).
E o título do filme está bem claro para o que podemos esperar da história e de Jackman nela. E por mais que tenhamos um filme extremamente atmosférico, com um visual bem cru, acabar por ser um bem contemplativo em sua proposta, sem dúvidas, e que não deixa de entregar momentos de reflexão bem interessantes. Mas, ao mesmo tempo, nunca chega a realmente empolgar de fato.
O que atrapalha até Jackman, que claro, está muito bem, mas desde 2019, lá com Má Educação (que curiosamente foi lançado no streaming), que o ator não se aventura para fora da sua zona de conforto. E A Morte de Robin Hood é Jackman no piloto automático, sem dúvidas, mas que de certa forma não deixa de ter seu próprio charme. É muito interessante ver essa abordagem mais realista, sombria e visceral que é apresentada do icônico personagem.
E Jackman realmente entrega bons momentos como esse homem atormentado pelas decisões que ele tomou no passado e que transformaram Robin Hood numa lenda. O ator debruça na figura humana, não na figura imaculada do herói. Em uma das cenas do filme, o personagem até cita que ele foi responsável por diversas mortes, inclusive pela de um Xerife, e isso o transformou e lhe deu um status de justiceiro e defensor dos menos afortunados. Mas também, como o filme bem deixa claro, ele é só um homem muito inteligente com uma habilidade única, que dominou técnicas de luta e de combate.
E A Morte de Robin Hood nada mais é do que isso: as confissões de uma mente pronta para se despedir. Já que como vemos logo nas cenas iniciais do filme, o personagem está cansado, depois de ao longo dos anos, refletindo sobre as muitas das vítimas que passaram pela sua espada e querem ser vingadas por seus entes queridos.
Enquanto o texto de Michael Sarnoski (que também dirige o longa depois de passar pela franquia Um Lugar Silencioso) ambienta o espectador nesse mundo cinza, sombrio e pessimista, Jackman, com seu olhar perdido e voz rouca, abraça o espectador nessa jornada para vermos o personagem contemplar sua trajetória na medida em que foge das pessoas que o perseguem e recebe a visita de um conhecido do passado, Edward (Bill Skarsgård em mais um papel de perturbado).
Enquanto o passado de Robin Hood e de Edward é revelado, e a identidade do segundo movimenta a trama, o filme introduz na figura da jovem Margaret (Faith Delaney) uma personagem que faz a ponte entre o que o protagonista passa e o que seus últimos momentos serão. Afinal, todos eles se encontram na ilha onde a irmã Brigid (Jodie Comer) administra uma espécie de santuário/hospital para cuidar dos mais necessitados.
A Morte de Robin Hood parece ser um grande vem aí para vermos quando e como o título da obra vai acontecer em tela. Saber o destino do protagonista não anula as surpresas do roteiro, e a trama ganha força com as figuras que cruzam o caminho de Robin Hood. E, durante a jornada, diversas figuras aparecem para servir de auxílio (ou ameaça) para Robin Hood nesses momentos que ele considera seus finais: desde o paciente com lepra (um irreconhecível Murray Bartlett) até o jovem Arthur (Noah Jupe, vindo de uma boa trajetória de filmes mais adultos) que depois de um acidente o faz ser o responsável por vingar seus parentes.
É um filme extremamente brutal e violento, sem dúvidas, e que te faz sentir que, nessa Inglaterra do século XIII, as coisas eram realmente ruins para se viver, mas que de certa forma ressignifica a lenda do guerreiro, que já foi contada diversas e diversas vezes e de diversas formas. E aqui, nessa versão de Sarnoski, nem tudo é o que parece ser, e a trama vai para caminhos inesperados em alguns momentos.
Por conta da atmosfera carregada, A Morte de Robin Hood pode soar como um filme muito denso e, até mesmo, cansativo de assistir. E, com pouco mais de 2 horas e prejudicado pelo ritmo arrastado, o longa acaba por ser um exercício de tentar compreender esse personagem mais do que qualquer outra coisa. Mas pelo menos soa mais interessante do que a última tentativa de contar essa história, que foi quando o jovem Taron Egerton tentou fazer Robin Hood acontecer de uma forma engraçadinha e sexy, ousada no melhor estilo dos filmes de super-herói.
A Morte de Robin Hood está em cartaz nos cinemas nacionais.
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