A Hora do Mal | Crítica: Um conto angustiante

Ao longo de A Hora do Mal(Weapons, 2025) a frase “Que porra é essa?” é falada casualmente por diversos personagens até que um deles diz isso de forma sequencial e realmente esse é o sentimento que o filme passa e que é sentido ao longo de suas mais de 2 horas.
Vindo de Noites Brutais, o diretor e roteirista Zach Creggerconsegue aqui esse novo projeto se firmar de uma vez por todas como uma voz extremamente criativa dentro do cinema de gênero. Ao colocar uma criança com uma voz calma e serena narrando os acontecimentos do filme, é como se tivéssemos o começo de uma grande imersão que A Hora do Mal fará com os espectadores nas próximas 2 horas e pouquinho. “Essa é uma história real…” começa a criança enquanto cenas e momentos dos acontecimentos passam na tela: em um dia aparentemente normal, 17 das 18 crianças da sala da Srta. Grandy (Julia Garner) faltaram para aula e somente um único estudante, o jovem Alex (Cary Christopher) apareceu.
Curiosamente todas elas sumiram na noite anterior, quando os alarmes tocaram lá pelas 2 horas da manhã e 17 minutos, e elas saíram de suas camas, desceram as escadas, saíram de suas casas madrugada a fora…. E desapareceram. As câmeras nas portas das casas apenas mostram elas correndo para a escuridão e nada mais.
A criança-narradora continua a contar os acontecimentos nos dias posteriores e como a polícia local, os pais, os professores, e corpo docente do colégio Maybrook lidaram com o acontecimento. Mas como o narrador diz, a verdadeira história começa naquele momento. E bem, ele não está enganado. O que Cregger cria aqui com A Hora do Mal é um quebra-cabeça extremamente satisfatório que se constrói na frente do espectador e garante momentos ao mesmo tempo intrigantes e angustiantes.
E é tão difícil falar sobre o filme, o que passa na trama, sem dar spoiler, mas tentarei fazer o máximo possível para não estragar a experiência de você leitor e que você possa ir para sua sessão com menos informação possível igual eu fui e possa saborear tudo que Cregger apresenta aqui.
Dividido por curiosos capítulos, A Hora do Malcai de cabeça no dia-a-dia de alguns dos moradores da cidade dias antes, durante e depois dos eventos do fatídico desaparecimento dessas crianças. E é isso que deixa A Hora do Malainda mais interessante narrativamente falando, o fato de termos crianças envolvidas, e no cerne desse mistério todo. Afinal, os capítulos focam em boa parte nos adultos que até têm suas funções na história, sem dúvidas, mas que realmente não são os protagonistas desse conto assombroso de desaparecimento.
Da professora Justine Gandy, interpretada brilhantemente por Garner, onde vivemos o “Julia Garner Summer” com ela nesse e Quarteto Fantástico, uma mulher que é criticada por aparentemente se preocupar demais com seus alunos, para Archer, o pai de um deles, um construtor interpretado por Josh Brolin que ferozmente procura pistas e vive um luto infinito enquanto tenta seguir sua vida em vão, para Paul, um policial vivido por Alden Ehrenreichque tem problemas com bebidas e um temperamento forte, para Marcus, o diretor da escola vivido por Benedict Wong que tenta fazer o seu melhor tanto para ele quanto para o local que trabalha.

E para diversos outros moradores dessa cidadezinha que alguns são mais (como os pais das crianças) , ou menos (como o jovem viciado Anthony de Austin Abrams), impactados e sofrem as consequências dos desaparecimentos. Como falamos, A Hora do Malfoca neles, nos conta boa parte da história pelas perspectiva de todos eles, enquanto nos dá pistas do que realmente aconteceu com aquelas crianças. Algumas narrativas estão para dar contextos maiores e maiores profundidades para alguns, mas não são realmente importantes para a trama maior que só é apresentada lá pelo final do filme.
Igual em Noites Brutais, A Hora do Mal é um filme de reviravoltas e que saber qualquer coisa faz a total diferença. Lentamente construída, a narrativa cria momento por momento, e nos dá pequenas pistas do que está rolando antes mesmo dos personagens saberem o que acontece, coisa que deixa o longa com sentimento de urgência um pouco grande, afinal, temos boa parte das informações que os personagens não tem.
Entre um susto e outro, cenas mais gráficas e extremamente violentas, A Hora do Mal efetivamente não assusta, mas tem alguns jumpscare, e sim, capricha na ambientação de que alguma coisa está errada principalmente. A cada “capítulo” temos um tipo de gancho que garante que ficamos presos na cadeira, apenas ruminando o que acabamos de ver e juntando a peça nova de informação que recebemos enquanto o longa parte para focar em um outro personagem e nos dar uma nova pista.

Na medida que a trama, e os personagens, se convergem A Hora do Mal acelera na narrativa e vai nos dando respostas para o que aconteceu e o que pode acontecer com esses personagens. Tudo é brilhantemente construído por Cregger, seja na narrativa, seja com a ajuda dos atores, ou com o uso da câmera que acompanha diversos deles como se estivéssemos junto com eles. Garner e Brolin são os destaques e estão muito bem, assim como dois outros atores que carregam os momentos finais, mas que não vou revelar suas identidades aqui por achar que é contar muito da trama.
Mas vocês vão saber quem são quando o filme ultrapassar a sua primeira hora e chegar nos momentos finais que vão passar correndo, com os braços esticados, numa velocidade gigante e que vão te atropelar de uma forma que você não esperava. Principalmente para um filme que segura tão bem suas revelações e que apenas solta elas nos momentos certos para fazerem sentido com as bizarrices que vemos.
No final, A Hora Do Malnão só faz um dos mais legais do ano, mas também um filme bastante espinhoso de ser debatido sem estragar a experiência do coleguinha. Cregger se torna referência para a construção de filmes assim, e lembra o início da Blumhouse quando o selo era focado em bons filmes (ou, talvez, só os de Jordan Peele).
Mas depois de Noites Brutais e com esse chegando agora nos cinemas, fica claro que Cregger vai se tornar aquele tipo diretor em que o próximo projeto é um para ser aguardado. Se você ouviu, viu qualquer tipo de hype para A Hora do Mal, pode ter certeza que foi mais do merecido e que definitivamente quando bater o relógio no início da sua sessão você pode ter certeza que vai sair duas horas depois com o sentimento de “poxa, vi um bom filme!”.
Cregger eleva a barra de filmes nesse início do segundo semestre, sem distinção de gênero, onde até mesmo os terrores mais tradicionais vão ter que trabalhar muito para conseguirem superar ou pelo menos chegarem perto do que A Hora do Malentrega. E quem sabe você consiga recuperar sua voz e recolher o queixo do chão quando a luz do cinema acender e você caminhar para fora da sala.
A Hora do Mal chega em 7 de agosto nos cinemas.











