Nomadland | Crítica : Ao cair na estrada para mostrar uma vida mais simples, Cholé Zhao entrega um filme gigantesco

O aclamado Nomadland(2020) finalmente desembarca, e vai estacionar sua van, no Brasil nos próximos dias, depois de uma longa viagem. Tudo começou lá em Veneza no longínquo ano passado, onde depois o longa da Searchlight Pictures(um dos estúdios americanos mais focados em produções de arte) passou por boa parte dos festivais de cinema ao redor do mundo, como Telluride, Nova York e Londres e que serviram como se fossem pedágios no caminho rumo à temporada de premiações, que em 2021 foi mais tardia por conta da pandemia do coronavírus, e termina agora no final do mês.
E por onde parou sua van, Nomadland acenou para o sucesso, e com as janelas abertas, deixou o vento entrar onde o sol banhava todos aqueles que eram impactados pela história de vida de Fren, a atuação de Frances McDormand, e a sutileza e delicadeza mostrada por Cholé Zhao(em seu terceiro filme com diretora) para contar essa história. Ao cair na estrada para mostrar uma vida mais simples, e na busca por retratar uma simplicidade ao contar a história da nossa protagonista, Zhao entrega um grandioso filme.

Foto: Searchlight Pictures/20th Century Studios
Nomadlandfaz uma das produções mais bonitas da temporada, num trabalho de preocupação com a história que é contada, e a forma como ela é contada, muito interessante de se assistir. Aqui, Zhao faz o espectador conhecer a vida de Fren e os motivos que a levaram a participar do movimento dos nômades dos EUA de uma forma completamente imersiva e que nos joga para dentro do filme como se fossemos uma mosquinha no para-brisa de sua van que serve de moradia, além de ser seu único modo de locomoção.
Como a personagem diz em um determinado momento do filme: Eu não sou uma pessoa sem um lar, eu só não tenho uma casa.E ao mostrar esse estilo de vida mais simples e desprendido, Nomadland faz uma mistura de ficção e com documentário que acompanha momentos da vida de Fren(Francis McDormand novamente numa atuação sem tamanho e que entrega aquilo que é esperado após o arrebatador Três Anúncios Para Um Crime(2017) que deu o Oscar para a atriz e que também era um lançamento da Searchlight Pictures) e sua entrada nesse mundo cheio de dificuldades e mas.. e como….
Sinto que Nomadland não vem para julgar, ser didático ou incentivar, ou ainda condenar esse estilo de vida, e sim nos apresentar um retrato íntimo e completamente imersivo sobre a situação que muitos americanos vivem. É uma história de americanos aparentemente esquecidos e que desaparecem das grandes cidades ao caírem na estrada ao se locomovem pelo país em suas vans, de uma forma silenciosamente e quase invisível, e que só querem viver suas vidas da forma mais simples possível.
Nomadland mostra então a viagem de Fren que encontra pessoas ao longo do caminho que são nômades da vida real onde Zhao consegue mesclar tudo isso, o real e o ficcional, muito bem, e Frances McDormadfica no personagem o tempo todo e serve como um guia para nós os espectadores adentrarmos na vida de Fren e nessa sua história. Os detalhes, as escolhas estéticas e narrativas fazem do filme ser apenas incrível em sua proposta. Ao mesclar a história de Fren com as passagens de diversos Estados americanos, e em diversas estações do ano, Zhao e seu time de profissionais que trabalharam na produção do filme conseguem brincar com os mais diversos cenários, todos sempre, marcados com um sentimento de escala muito grande, e que ajuda a nos mostrar o quão grande é o mundo, e o quanto Fren tem de curiosidade para conhecer todos os cantos dele.
Com uma trama que aposta basicamente em mostrar Fren apenas por viver seus momentos, com altos e baixos, seja desfrutar um “dia do spa” com as amigas que fez num acampamento na participação de Linda May e Charlene Swankie (nômades de verdade), ou quando seu pneu fura e ela precisa desembolsar uma grana para consertar e pedir a quantidade para os familiares, e visitar sua irmã (Melissa Smith) que não aprova seu estilo de vida, Nomadland vai por construir este quebra-cabeça que é vida, e as escolhas, que Fren toma ao longo do filme.
Não espere grandes reviravoltas, ou grandes acontecimentos, Nomadland aposta no contemplativo, e num forte visual para contar essa história. Ao colocar a personagem nessa viagem sozinha, às vezes, com a companhia de Dave (David Strathairn),que eu nunca vou perdoar por ter derrubado aquela caixa, Nomadlandmostra o poder de uma comunidade e de pessoas que acabaram sendo esquecidas pelo sistema de alguma forma. Baseado no livro Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century (lançado em 2017 pela autora Jessica Bruder), Zhao adapta o roteiro para mostrar e apresentar diversas situações que nos entrega esse mapa sobre como Fren escolheu (onde talvez essa fosse sua única opção no final das contas) viver como nômade após a morte do marido.

Foto: Searchlight Pictures/20th Century Studios
E Nomadland também nos entrega um filme com uma jornada além da física sobre as estradas dos EUA, também um filme sobre luto, contemplar um futuro incerto, e o que fazer depois de anos vivendo a mesma vida e no mesmo local. Ao usar o branco do inverno, e o alaranjado/arroxeado de um pôr do sol, vemos Fren basicamente passar todas as fases desse luto para enfim conseguir superar essa imensa e devastadora perda que para ela não foi só o marido, mas sim, de toda sua vida. Assim, Nomadlandfaz um filme sobre fechar um círculo, onde diferente de um dos longa da Marvel Studios (que faz parte do mesmo grupo que a Searchlight, a Disney) que diz que parte da jornada é o fim, em Nomadland fica claro que parte da jornada é a jornada.
Zhao conta essa história de uma forma que aos poucos, a cada km rodado no relógio do filme, sabemos mais sobre nossa protagonista e sobre como vivem essas pessoas. É como um dos personagens diz no filme: o que é lembrado, vive. E no final, e é isso que para mim, pessoalmente, que é o maior mérito de Nomadland: entregar, e ser, um filme que consegue nos cativar com um trabalho técnico excepcional para contar sua história sobre um grupo de pessoas que estão ali vivendo suas vidas da forma mais simples e sem firulas, e que com certeza, deixará um marco no começo dessa década como uma das produções mais bonitas desse período na indústria cinematográfica e em Hollywood.
E para Cholé Zhao e Frances McDormand esse é apenas o começo, o futuro as espera para os frutos que serão colhidos por conta do trabalho inigualável que elas entregam em Nomadland. E para as duas apenas digo: Te vejo na estrada… com certeza que as verei em breve e outros incríveis novos projetos. Mal posso por esperar.
Nomadland chega em 29 de abril nos cinemas que estiverem abertos.
A 20th Century Studiosnos enviou o filme de forma antecipada para assistirmos em casa e fazermos nossa crítica.











